DITADURA MILITAR: Placa colocada em frente ao Dopinha, em Porto Alegre, para denunciar crimes da ditadura é coberta com cimento

A placa colocada na calçada em frente ao casarão que abrigou o Dopinha, apontado como centro clandestino de repressão e tortura que funcionou em Porto Alegre entre 1964 e 1966, durante a ditadura militar, foi totalmente coberta por uma camada de cimento. Instalada no dia 12 de agosto de 2015 em frente ao casarão localizada na rua Santo Antonio, número 600, a placa foi uma iniciativa do projeto Marcas da Memória, criado por meio de uma parceria entre o Movimento de Justiça e Direitos Humanos com a Prefeitura de Porto Alegre para identificar locais onde ocorreram violações de direitos humanos durante a ditadura. A placa agora coberta de cimento dizia:

“Primeiro centro clandestino de detenção do Cone Sul. No número 600 da rua Santo Antônio, funcionou estrutura paramilitar para sequestro, interrogatório, tortura e extermínio de pessoas ordenados pelo regime militar de 1964. O major Luiz Carlos Menna Barreto comandou o terror praticado por 28 militares, policiais, agentes do Dops e civis, até que apareceu no Guaíba o corpo com as mãos amarradas de Manoel Raimundo Soares, que suportou 152 dias de tortura, inclusive no casarão. Em 1966, com paredes manchadas de sangue, o Dopinha foi desativado e os crimes ali cometidos ficaram impunes”.

A reportagem é de Marco Weissheimer, publicada por Sul21, 29-10-2020.

O casarão que abrigou o Dopinha foi identificado como centro de tortura em junho de 2011. Em 2014, durante o governo Tarso Genro, os proprietários do imóvel concordaram em vender o local ao poder público e disponibilizá-lo para a concretização do Memorial Ico Lisbôa. O processo para a construção do Memorial parou a partir da eleição de José Ivo Sartori para o governo do Estado.

No dia 5 de maio de 2016, o então prefeito de Porto AlegreJosé Fortunati, firmou um compromisso com representantes do Comitê Carlos de Ré da Verdade e Justiça, deputados estaduais e vereadores de que a Prefeitura bancaria a desapropriação do prédio, o que acabou não acontecendo. Ainda em 2016, representantes do Comitê Carlos de Ré da Verdade e Justiça denunciaram que o prédio estava sendo reformado, incluindo a instalação de uma piscina dos fundos do terreno. Os integrantes do Comitê alegaram que, por se tratar de um prédio de interesse histórico no município de Porto Alegre, qualquer alteração precisaria ser aprovada pela Prefeitura, o que não teria acontecido.

Para Suzana Lisboa, que passou a dedicar sua vida à causa dos familiares de mortos e desaparecidos pela ditadura, desde o desaparecimento de seu marido Luiz Eurico Tejera Lisboa pela mão dos militares, o ataque à placa colocada em frente ao Dopinha, em Porto Alegre, é mais um reflexo da impunidade com que os crimes da ditadura foram tratados. “Tentar ocultar a tortura e torturadores é um crime tão perverso quanto defender. O Brasil hoje está pagando um preço à altura do seu desleixo com os crimes cometidos durante a ditadura militar”, disse Suzana ao Sul21.

“A história não se apaga com concreto”

O Grupo por Verdade e Justiça, criado por estudantes da UFRGS, publicou uma nota em sua página no Facebook condenado a destruição da placa. Intitulada “A história não se apaga com concreto”, a nota afirma:

Nos últimos dias a placa do Dopinha foi encontrada tapada por cimento. Todas as informações ali contidas desapareceram. Não aceitamos que o mínimo que foi feito diante dos crimes cometidos pelo Estado terrorista seja assim apagado. O prédio pode ser de propriedade privada porém a partir do momento em que é declarado de interesse público é ilegal que se mexa em qualquer estrutura sem consulta dos órgãos responsáveis, muito menos em uma iniciativa que contou com o aval da própria Prefeitura de Porto Alegre.

As paredes do Dopinha, assim como de diversos espaços em Porto Alegre e na região metropolitana (Palácio da Polícia, Quartel do Exército, Presídio Madre Pelletier, Ilha do Presídio, Base Aérea de Canoas, entre outros) continuam até hoje manchados de sangue. Os agentes do Estado que cometeram esses crimes continuam impunes, passamos por esses locais, muitas vezes, desconhecendo ou ignorando o que aconteceu durante mais de duas décadas em nossa própria cidade. Precisamos de Memória, Verdade e, mais do que nunca, Justiça! Todos/as tem o direito de conhecer a própria história e lutar para que não se repita nunca mais”.

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