'Prioridade do PT é a unidade de esquerda', diz Gleisi Hoffmann

Em entrevista a Breno Altman, a atual presidente do PT falou sobre o projeto do partido de reconstrução e transformação do Brasil; assista vídeo na íntegra

 

CAMILA ALVARENGA

Madri (Espanha) - Opera Mundi

No programa 20 Minutos desta sexta-feira (03/03), Breno Altman entrevistou Gleisi Hoffmann, presidente nacional do Partido dos Trabalhadores e deputada federal pelo estado do Paraná. Durante a conversa, ela falou sobre a importância de ir à rua e estabelecer contato com outros partidos para fazer frente a Bolsonaro em 2022.

Para Hoffmann, em um primeiro momento, o importante é somar forças. “Todos que se colocam em uma posição crítica a Bolsonaro temos que procurar para conversar. Ainda que a gente não esteja de acordo em tudo, temos que fazer esse esforço”, insistiu, afirmando que o projeto Bloco na Rua, de Fernando Haddad, não é um movimento eleitoral, mas um movimento político.

“Queremos mostrar para o Brasil que o PT tem um plano de reconstrução e transformação social. É importante, então, agregar forças dentro dessa lógica, mas não necessariamente buscando alianças eleitorais”, explicou a deputada. A partir desse argumento, Hoffmann justificou a visita de Haddad a Alexandre Kalil, prefeito de Belo Horizonte pelo PSD e cujo nome ganhou relevância por seu combate ao novo coronavírus e oposição ao presidente Bolsonaro.

Do ponto de vista eleitoral, no entanto, ela foi taxativa: “A prioridade do PT é construir uma unidade de esquerda. Mas acho que se a gente tiver uma aliança política diversa, mesmo que ela não leve a uma aliança eleitoral no primeiro turno, podemos reorganizar essas forças políticas no segundo turno, porque a tendência é que Bolsonaro vá para o segundo turno e precisamos ter alguém da esquerda para fazer frente a ele”.

Ela não comentou quem poderia fazer essa frente. Ressaltou que o PT é, para ela, o partido com maiores condições de oferecer um nome de peso para disputar as eleições, mas que, de momento, o importante é discutir um projeto com a esquerda e com a centro-esquerda, “independente de nomes”. O que não quer dizer, contudo, que lideranças não estejam em debate, “só não podemos ter imposição nem vetos de nomes de ninguém”.

Hoffmann mencionou a importância de líderes como Flávio Dino (PCdoB), Guilherme Boulos (PSOL) e até Ciro Gomes (PDL).

“Tenho visto boa vontade por parte deles. Não por parte do Ciro, porque ele disse que queria combater o PT, mas acho que até ele poderia fazer parte se ele tiver mesmo um compromisso com o país, porque o projeto dele é muito semelhante ao nosso. É contraditório que ele queira fazer alianças com setores contrários a esse projeto”, afirmou.

Diante de tantas alternativas de liderança e a possibilidade de que os direitos políticos de Lula não sejam restituídos, a deputada ponderou sobre uma possível fragmentação da esquerda que resultaria num segundo turno disputado pelas direitas. Ela admitiu que Lula é a grande liderança capaz de unir o campo progressista.

“Talvez hoje, pela realidade que vivemos, pode ser diferente. Tudo vai depender da nossa capacidade, do nosso potencial de agregar, de tentar conversar com outros partidos”, disse.

‘Nós fomos muito jovens para o governo’

As reflexões feitas por Hoffmann em relação à 2022, segundo ela, têm muito a ver com o que o PT aprendeu após permanecer por 13 anos no poder. Avaliando a trajetória política do partido, ela considera que foram “muito jovens para o governo”, considerando que a legenda tinha apenas 22 anos de vida quando Lula foi eleito pela primeira vez.

“Fomos o primeiro governo democrático e popular da nossa história. Então o governo tinha que dar resultado. Todas as nossas energias foram drenadas para dar resultado”, afirmou. Ela não avalia como negativo, entretanto, a política de alianças do PT, que possibilitaram sua vitória em 2002. 

“Se não tivéssemos feito isso, teríamos chegado aonde chegamos? Não só nos mantendo como um partido de oposição sem influenciar nos rumos do país?”, questionou. Para ela, o PT fez o que era necessário para chegar ao poder central e aplicar seu projeto de governo, “mas claro que subestimamos várias coisas”, admitiu. 

Mesmo com uma política de alianças, o PT não pode fazer tudo o que quis. Deixou de lado reformas estruturais para aprovar políticas públicas. “Mas se eu olhar pra trás, digo que valeu muito a pena porque, com todos os problemas, mostramos que era possível mudar a vida do brasileiro”, ressaltou.

O golpe de 2016

Para Hoffmann, uma das maiores falhas do PT, enquanto esteve no poder, foi a de não se dedicar o suficiente para o trabalho de organização e conscientização popular.

“Mas não digo que tínhamos ilusões sobre o comprometimento democrático da burguesia, porque boa parte do que avançamos foi com a participação da burguesia. Achávamos possível nos aliar a ela, mas isso não vingou. Ou seja, a burguesia nunca teve um projeto nacionalista”, disse.

Esses dois fatores somados foram o que, para ela, fez com que o golpe de 2016 contra a presidente Dilma Rousseff fosse bem sucedido.

“Quando veio o mensalão, acho que nem todo o mundo percebeu a dimensão daquilo para tentar desestabilizar o PT. E com relação à organização popular, a avaliação era que simplesmente fazendo bons programas e melhorando a realidade da população a gente ia gerar uma consciência do que significava um governo democrático popular, mas isso não aconteceu”, explicou.

Aprendizados

Apesar da tragédia que foi o golpe, Hoffmann avalia que a experiência deu ao PT força e resiliência. Segundo ela, outros partidos não teriam sobrevivido à perseguição que sofreu o PT, e que de certa forma ainda sofre.

Hoje, ela considera que os novos programas do partido são muito mais avançados do que em relação à 2002, sobre tudo na economia. Não acredita, entretanto, que, considerando que um dos grande problemas do PT quando estava no governo foi não contar com a maioria no Congresso Nacional, o partido deva dar prioridade a candidaturas para deputados federais e senadores.

“Talvez se hoje a gente fizesse um esforço pegando as maiores lideranças regionais, de políticos que poderiam se tornar governadores, e lançá-los a deputados, íamos eleger muito, mas não sei se nos daria maioria. É algo muito difícil de conseguir”, justificou.

Programa de reconstrução e transformação do Brasil

A deputada mencionou o programa do PT de reconstrução e transformação do Brasil. Não é um programa de governo, segundo ela, por não incluir ainda pontos cruciais como o do combate à tutela militar do Estado, mas poderia influenciar sua formação.

Um dos principais temas que o programa aborda é o das amarras fiscais ao Estado, que o deixam “refém do mercado e de pagamento de dívida”. 

“A capacidade do Estado de intervir no processo econômico determina o desenvolvimento do país. Vai ser recuperar o que estão destruindo, mas é algo que precisamos fazer. Inclusive quebrar o mito de que Estado quebra e que então não tem dinheiro para programas sociais e tudo precisa ser privatizado”, disse.

Além de uma nova gestão fiscal, o partido propõe uma reforma tributária, pois a atual é regressiva, penaliza os mais pobres e o consumo. “O Brasil não cobra imposto sobre dividendos e lucros. Os ricos pagam menos. Só é isento do Imposto de Renda quem ganha até R$1.900,00, isso é menos de dois salários mínimos. É muito cruel”.

A reforma do sistema bancário e financeiro, um dos carros chefes de Fernando Haddad durante as eleições de 2018, são outro ponto. “Há quatro bancos que controlam tudo e uma taxa de juros absurda. Não entro na questão de nacionalização, mas precisamos democratizar o sistema bancário”, ressaltou Hoffmann.

fonte: https://operamundi.uol.com.br/politica-e-economia/68757/prioridade-do-pt-e-a-unidade-de-esquerda-diz-gleisi-hoffmann