Com palavras firmes e proféticas do Papa Francisco começa o Sínodo para a Amazônia

A assembleia do Sínodo para a Amazônia começou, neste domingo, 6 de outubro, na Basílica de São Pedro, com uma celebração presidida pelo Papa Francisco, onde mais uma vez, em uma homilia cheia de firmeza e sentido, incentivou os participantes da assembleia sinodal e deixou claro para aqueles que reivindicam prudência, que isso não pode ser confundido com uma atitude defensiva, muito menos ofensiva, como alguns assumiram como prática habitual.

A reportagem é de Luis Miguel Modino.

Vivemos em uma sociedade e uma Igreja marcada pelo "sempre se fez assim", o que faz com que, segundo Francisco, " o dom desaparece, sufocado pelas cinzas dos medos e pela preocupação de defender o status quo ". Como também recolhe o Instrumentum Laboris, o Papa alertou sobre o perigo de uma pastoral de "manutenção", chamando ao "ardor missionário" como um "sinal claro da maturidade de uma comunidade eclesial".

Foto: Luis Miguel Modino

No texto paulino deste XXVII domingo do tempo comum, o bispo de Roma lembrou que "em oposição à timidez, Paulo coloca a prudência", o que reforça o catecismo com timidez ou medo, insistindo que "a prudência não é indecisão, não é um comportamento defensivo. É a virtude do Pastor que, para servir com sabedoria, sabe discernir, sensível à novidade do Espírito”.

Foto: Luis Miguel Modino

Em um Sínodo que deseja abrir novos caminhos, o Papa deixou claro que "reacender o dom no fogo do Espírito é o oposto de deixar as coisas correr sem se fazer nada", denunciando os momentos em que "houve colonização em vez de evangelização!”, e pedindo firmemente que “Deus nos preserve da ganância dos novos colonialismos” e aqueles que querem “fazer triunfar apenas as próprias ideias, formar o próprio grupo, queimar as diferenças para homogeneizar tudo e todos”. Francisco insistiu que "o anúncio do Evangelho é o critério primeiro para a vida da Igreja ".

Foto: Luis Miguel Modino

Numa realidade em que “muitos irmãos e irmãs na Amazônia carregam cruzes pesadas e aguardam pela consolação libertadora do Evangelho, pela carícia de amor da Igreja”, o Sínodo se apresenta como uma oportunidade histórica para a Igreja responder a uma das grandes ordens do processo de escuta sinodal, que "caminhemos juntos". Somente assim a Igreja pode se tornar uma referência para as pessoas, para a sociedade e para a grande maioria dos católicos, que sentem isso como um tempo de graça.

Foto: Luis Miguel Modino

Nada melhor do que colocar nossos esforços e esperanças nas mãos de Deus, um Deus Criador que continua presente em nosso meio. Uma atitude de súplica presente na Basílica de São Pedro, como também na Igreja Transpontina, que ficou pequena na noite do sábado, com muita gente sentada no chão, orando e pedindo a força do Espírito pelo Sínodo, no evento organizado pela Amazônia Casa Comum. Mulheres e homens que sentiram a força trazida pelos povos originários da Amazônia, que carregam em seus corações a vida de uma grande multidão de povos, de uma floresta ameaçada, mas que descobriram na Igreja a força de uma profecia que nasce de Deus.

Foto: Luis Miguel Modino

Este é um Sínodo que revela que a esperança dos pobres está viva, como afirmou Dom Roque Paloschi, arcebispo de Porto Velho e presidente do Conselho Indígena Missionário Brasileiro. Isso se percebe nas vozes do território, presentes nesses dias em Romavozes da Amazônia, vindas da periferia, que ressoam no centro tradicional do cristianismo, nos portões da tumba de Pedro, no ouvido de seu sucessor, em que os povos amazônicos sentem a presença de um dos seus grandes defensores.

Foto: Luis Miguel Modino

É Francisco, o apóstolo da ecologia integral, que nos chama para cuidar da casa comum, ameaçada por madeireiros, garimpeiros, por grandes empreendimentos que cercam os povos originários, como denunciou a irmã Laura Vicuña Pereira Manso, que acompanha o povo karipuna de Rondônia, catequista franciscano que está neste serviço de presença entre os povos indígenas há vinte anos. Uma luta que nunca foi fácil, mas que foi complicada por um governo que vê como um ataque à soberania nacional o fato de defender a terra, a água e a floresta, que não quer entender que só temos esta casa para viver.

Foto: Luis Miguel Modino

Muitos morreram e continuam a morrer para defender a Amazônia, como Dorothy StangChico MendesEzequiel Ramin, exemplos concretos de tantas mulheres e homens que lutaram para tornar a ecologia integral uma realidade palpável, exemplos de uma Igreja profética na Amazônia, com seus desafios e esperanças, com um clamor que, como aconteceu com o povo de Israel, como narra o livro de Êxodo, chegou a Javé, que viu a opressão que eles sofrem.

Foto: Luis Miguel Modino

Ele é um Deus trinitário, uma família que esteve presente nesta importante vigília, assim definida pelo cardeal Pedro Barreto, um dos três presidentes deste Sínodo para a Amazônia, que ele vê como uma terra boa, como água da Vida que vai dar frutos. Um Deus que sofre com o sofrimento do seu povo, que caminha na Amazônia, um Deus que inspirou Francisco de Assis, alguém que tinha um futuro de sucesso pela frente, herdeiro de um pai com muito dinheiro, mas que sentiu um chamado ao coração de um Cristo que ficou pobre enquanto era rico. Um Francisco de Assis, que muitos descobrem hoje presente em um novo Francisco, este de Roma

É um tempo de graça, cada vez mais evidente, cada vez mais presente no coração da Igreja, de tantos homens e mulheres que convergiram em um sentimento comum, é hora de realizar a vontade de Deus, que deseja novos caminhos, confiada àqueles que, através de um discernimento saudável, juntos, em atitude sinodal, os procurarão durante as próximas três semanas.

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fonte: http://www.ihu.unisinos.br/593228-com-palavras-firmes-e-profeticas-do-papa-francisco-comeca-o-sinodo-para-a-amazonia


Muda o mapa do futuro conclave. E Francisco adverte: não à deslealdade

Parece evidente até mesmo a Francisco que alguns estão trabalhando contra o pontificado e para influenciar o próximo conclave. Nesse sábado, 5, ele criou 13 novos cardeais: 67 de 128, portanto a maioria é de sua nomeação.

A reportagem é de Paolo Rodari, publicada por La Repubblica, 06-10-2019. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Ele lembrou a todos que “muitos comportamentos desleais de homens da Igreja dependem da falta do senso de compaixão recebida e do hábito de olhar para o outro lado, do hábito da indiferença”. Palavras pesadas, que se somam a outras proferidas recentemente por dois dos seus fidelíssimos. O cardeal alemão Walter Kasper disse que “existem pessoas que simplesmente não gostam deste pontificado” e que “querem que ele se conclua o mais rápido possível para ter, digamos assim, um novo conclave”.

E o superior geral dos jesuítas, o venezuelano Arturo Sosa, que explicou que existem “setores fora e dentro do Vaticano que estão pressionando para que Francisco renuncie”.

O papa Bergoglio se mantém firme fisicamente, como Kasper confirmou nos últimos dias: “Ele está indo muito bem para um homem de 82 anos”. No entanto, algumas alas trabalham no “depois”, ignorando o fato de que, como lembra o historiador Enrico Galavotti, “a eleição de um papa é sempre condicionada por muitos fatores: é ilusório imaginar que se possa assegurá-la apenas com as criações cardinalícias” (Wojtyla criou 230 cardeais, mas o seu sucessor havia sido criado por Paulo VI)”.

Por isso, diz ele, “serão cruciais o momento em que o conclave ocorrer e as dinâmicas internacionais que estiverem em curso”.

Não faltam as figuras de destaque das várias alas, começando por dois purpurados italianos com profundidade teológica: o secretário de Estado, Pietro Parolin, e o arcebispo de BolonhaMatteo Zuppi. O primeiro dificilmente deixará RomaFrancisco o quer ao seu lado. As relações entre os dois não parecem ter sofrido fissuras. Embora a ideia de que Parolin seja transferido para Veneza em vista de uma possível sucessão não pertença ao estilo de Bergoglio, que, não fazendo cálculos para si mesmo, também não os faz para os outros.

A segunda figura cresceu mês após mês, capaz de se fazer apreciar em Bolonha pelo seu estilo pacato, tanto pelos bergoglianos quanto pelos seus opositores. A galáxia tradicionalista, pequena mas barulhenta, há muito tempo pressiona pela figura do cardeal Robert Sarah, da Guiné, que, no entanto, não parece conseguir se afastar da imagem de purpurado de linha teológica oposta a Bergoglio.

É no meio disso, no entanto, que parece jogar o curial franco-canadense Marc Oullet, que, na primeira votação no conclave de 2013, ficou em terceiro lugar, atrás de Scola e do próprio Bergoglio. No recente livro publicado pela editora Cantagalli “Amici dello sposo” [Amigos do noivo], Oullet tenta mediar as diversas posições sobre a abolição do celibato eclesiástico, mostrando-se, porém, bastante fechado: “Eu não sou contra, mas sim cético”, diz ele sobre a hipótese de ordenar como sacerdotes em áreas remotas do globo os chamados “viri probati”, homens idosos casados e de fé comprovada.

Cada conclave é uma história em si mesma. Tudo é jogado nos dias iminentes ao extra omnes. Por isso, mesmo que pese sobre a sua figura a origem estadunidense, o cardeal Sean O’Malley, arcebispo de Boston, é uma personalidade de destaque neste momento, depois de dar credibilidade a uma Igreja destruída pelos abusos sexuais cometidos pelos padres na época do cardeal Law. O sítio de notícias católico Crux se perguntou: “O’Malley pode ser o candidato da ala de centro-direita como novo papa?”.

A Igreja é muito vital na Ásia. O arcebispo de ManilaLuis Antonio Tagle, está entre as púrpuras mais respeitadas. Ele usa palavras novas e considera a Igreja do futuro como “mestiça”.

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fonte: http://www.ihu.unisinos.br/593224-muda-o-mapa-do-futuro-conclave-e-francisco-adverte-nao-a-deslealdade


O Sínodo Pan-Amazônico. Um sopro de fé das periferias

Ao abrirem-se as portas para a chegada de um ar renovado e fresco, há também o risco de um vendaval. O tumulto causado traz consigo o cheiro da novidade, mas também afasta e desestabiliza aquilo que já não é tão seguro e firme. Se o vento põe tudo abaixo é porque as estruturas já não se suportavam, eram de tamanha fragilidade que o sopro vem para justamente para gerar novas vidas.

Os Franciscos, tanto o de Assis como o Papa, reconhecendo a insustentabilidade dos ares de seus próprios tempos, puseram os rostos ao ventos da novidade, sem medir as consequências, mas com esperança da fé para seguir dando sustentação à Igreja e à Casa Comum. No dia 06-10-2019 os ventos da Floresta Amazônica chegam a Roma para abrirem as portas do mundo ao Sínodo Pan-Amazônico. O evento traz uma lufada de esperança capaz de sacudir estruturas e renovar a fé daqueles que se sentem sufocados pelas nuvens que tentam impedir o Irmão Sol de iluminar e sustentar a vida em toda sua biodiversidade.

Francisco, o Papa, ao aparecer pela primeira vez na varanda central da Basílica de São Pedro, deixou nas entrelinhas o que seria seu pontificado. Vindo de uma distante Argentina, quase no fim do mundo, apontou que estava no centro da Igreja alguém que perambulou pelas periferias do mundo. O Papa das Periferias assim tem feito. É nesse sentido que o Sínodo Pan-Amazônico expressa a própria de uma Igreja velha de estruturas mal pensadas e inalcançáveis no século XXI ao Povo distante. Francisco aponta na sua primeira exortação apostólica,Evangelii Gaudium, que o “tempo é maior que o espaço”, e demonstra nos seus atos, que o espaço é de fato atingível e encurtado. A Igreja distante exige aproximação por uma conversão pastoral.

Já em 2015, o pontífice descreveu o que seria o espírito, a inspiração do Sínodo Pan-Amazônico: a encíclica Laudato Si’. É nesse documento que estabelece a ecologia integral como o paradigma para o Cuidado com a Casa Comum, com a Criação como um todo. O Sínodo, convocado em outubro de 2017, tem no título essa referência “Sínodo para a Amazônia: Novos Caminhos para a Igreja e para uma Ecologia Integral”. O coração do processo é estabelecer uma conversão socioambiental, e, portanto, como apontou o Papa, quem não leu a Laudato Si’ jamais entenderá o Sínodo da Amazônia.



Região Pan-Amazônica

Diante da catástrofe climática e econômica, a Laudato Si’ provoca à nova concepção de mundo que o Sínodo tem como objetivo “aterrissar”. Ou seja, estabelecer as linhas concretas para o cuidado do território particular, o pan-amazônico, mas que implica no controle climático e da biodiversidade universal, juntamente com a concepção de outros modelos econômicos que também deem conta da preservação do planeta. Por isso, o Sínodo Pan-Amazônico traz consigo também a exigência da conversão sinodal: a participação descentralizada na Igreja, mas em unidade e colegialidade.

Tal qual a centena de afluentes que se unem ao caminho para formar o rio Amazonas, partindo das diversas periferias do mundo, o pontificado de Francisco tem no Sínodo Pan-Amazônico o encontro dos seus diversos caminhos construídos nesses seis anos. A força da água doce e das florestas que confortam o clima de todo o planeta são partes da estrutura da Casa Comum. Assim é o caminho da Igreja dos Franciscos, do Papa e do de Assis, “tudo está interligado”, é necessário sustentar as estruturas com ar e águas puras que geram a vida.

A abertura que Francisco promove parte da escuta e da esperança de mais de 80 mil pessoas que participaram dos fóruns preparativos deste Sínodo e o exercício do confiança no sensus fidei das populações amazônicas. Ao contrário de amedrontados pela fé diversificada, que brota e floresce em diferentes cantos por diferentes culturas, o Sínodo Pan-Amazônico é a aposta que a Casa Comum se sustentará pela experiência de quem lutou desde sempre para sobreviver.


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A seguir, apresentamos o desenvolvimento do processo, contado pelas páginas do IHU. Convidamos às leitoras e aos leitores para uma aprofundada leitura pelos diversos links disponíveis.

O sonho de um Sínodo para a Amazônia


Papa Francisco em Puerto Maldonado, em janeiro de 2018. Foto: Guzmán Negrini

Em maio de 2017, bispos peruanos se encontraram com o papa Francisco no Vaticano, que manifestou a primeira intencionalidade sobre um Sínodo Pan-Amazônico. Conforme descreveu o bispo de Puerto Maldonado, David Martínez Aguirre, o Papa afirmou ser “muito importante que haja um encontro entre nós, bispos da Amazônia, para elaborar linhas comuns e para expressar a riqueza não só ambiental, mas dos povos que habitam essas terras”. Em 15 de outubro de 2017, foi oficializada a convocação do Sínodo, ao final de uma missa na Praça São Pedro, nas palavras do Papa acolhendo o desejo e a voz de diversos pastores e fiéis. “O principal objetivo dessa convocação é identificar novos caminhos para a evangelização daquela porção do Povo de Deus, especialmente dos indígenas, muitas vezes esquecidos e sem a perspectiva de um futuro sereno, também por causa da crise da floresta amazônica, pulmão de grande importância para o nosso planeta”, proclamou.

Em janeiro de 2018, a viagem papal para o Chile e o Peru ficou marcada pelas turbulências que o papado tem enfrentado. No Chile, os escândalos de abusos e os erros cometidos por Francisco na avaliação e pronunciamento sobre os casos causaram um terremoto na Igreja, que se espalhou para outros cantos do mundo, sem a certeza de como será quando acabar. No Peru, a viagem a Puerto Maldonado confirmou a abertura do processo sinodal para a escuta dos povos amazônicos, pela defesa dos seus territórios e pela construção de uma “Igreja com rosto amazônico e uma Igreja com rosto indígena”, reafirmando junto aos povos indígenas “uma opção sincera pela defesa da vida, defesa da terra e defesa das culturas”.

Leia também sobre o encontro do papa Francisco e os povos indígenas em Puerto Maldonado:

Documento Preparatório: o ver-julgar-agir

Em junho de 2018 o processo sinodal iniciou a expansão para as comunidades amazônicas com a publicação do Documento Preparatório. O teólogo Paulo Suess, em entrevista à IHU On-Line comentou sobre o conteúdo do Documento, que conduziam para as intenções do papa Francisco em criar novos caminhos de evangelização. "Esses novos caminhos, marcados por três cuidados, são o fio condutor proposto para o trabalho do Sínodo Pan-Amazônico: o sujeito (os povos da Amazônia), a microrregião (rosto amazônico) e a macrorregião (novo estilo de vida de toda a humanidade)", explicou Suess.

O documento organizado pela metodologia Ver-Julgar-Agir apresentava uma diversidade de perguntas partindo desde a realidade socioambiental das comunidades às experiências de fé. Dom Roque Paloschi, arcebispo de Porto Velho/RO e presidente do Conselho Indigenista Missionário — CIMI, avaliou o documento e as responsabilidade de colocá-lo em prática: "O agir vai exigir de nós sobretudo uma grande disponibilidade de ouvir os gritos de Deus nos gritos dos pobres, para podermos agir de acordo com o coração de Deus e com o sopro do espírito".


Celebração do Sínodo Pan-Amazônico. Foto: Vatican News

Rede Eclesial Pan-Amazônica — REPAM também publicou uma versão popular do documento para dinamizar o trabalho de escuta e preparação ao Sínodo nas comunidades. 

Leia mais sobre o Documento Preparatório

As reportagens no coração da Amazônia 

As assembleias locais, fóruns e encontros sobre o Sínodo reuniram mais de 87 mil pessoas durante os anos de 2018 e 2019. O chamado processo de "escuta sinodal" foi coordenado pelas dioceses da região Pan-Amazônica e pela REPAM. Os debates propiciados a partir do Documento Preparatório procuraram refletir sobre os clamores dando pistas ao trabalho a ser desenvolvido na Assembleia deste mês de outubro.

IHU On-Line teve como grande parceiro Luis Miguel Modino, padre diocesano espanhol e missionário Fidei Donum, que fez matérias diretas desde o Coração da Amazônia. A partir do trabalho de Modino publicamos em nossas páginas reportagens e entrevistas com índigenas, religiosas e religiosas, padres e bispos que participaram ativamente do processo - nos 9 países amazônicos. 

Confira nos links abaixos algumas das reportagens:

O Instrumentum Laboris: ecologia integral, eucaristia, inculturação e ministérios

No mês de junho de 2019, o Vaticano publicou o Instrumentum Laboris, o Documento de Trabalho, construído pela secretaria do Sínodo a partir dos relatórios das escutas sinodais. É a partir deste relatório que as discussões da Assembleia dos Bispos será desenvolvida. 

A centralidade do documento está na ecologia integral, levando em frente o compromisso levantado pela Laudato Si'. No entanto, a preocupação com a Casa Comum emergiu das assembleias locais. Os problemas relacionados ao desmatamento, à pobreza, falta de serviços básicos às populações amazônicas, relacionam-se com os problemas de ordem eclesial, como a falta de padres e, por consequência, dos sacramentos, sobretudo, os mais ressaltado, da Eucaristia.

O documento deixa explícito a contradição entre a Amazônia exercer um papel central para o clima do planeta e para a biodiversidade, mas ser periférica para o atendimento das necessidades básicas de sobrevivência. Em entrevista à IHU On-Line, dom Roque Paloschi destacou a complexidade e profundidade do documento por trabalhar na perspectiva da integralidade: "Penso que o Instrumentum Laboris está mergulhado no mesmo espírito da Laudato Si’, que é da integralidade, da interligação. Dessa forma, se torna muito difícil destacar um ponto mais importante, visto que eles estão entrelaçados como a trama de uma rede e expressam clamores existenciais".

O teólogo e assessor da REPAM Paulo Suess, também analisou o Documento de Trabalho, em uma aprofundada entrevista à IHU On-Line: "O IL oferece muitas pérolas que configuram um colar bonito: a conversão, um olhar diferente, a encarnação, descentralização sacramental e ministerial, pastoral de presença, plural e profética".

Foi devido à essa pluralidade que a repercussão do IL foi tão polêmica. Cardeais como Gerhard Müller e Walter Brandmüller acusaram o documento, e o processo sinodal, de ser "herético e apóstata". Isso porque o documento faz referências à espiritualidade indígena e à importância da evangelização inculturada. 

O problema da falta de padres levantou a possibilidade da ordenação viri probati, isso é, ordenação de homens casados, nesse caso, de comunidades indígenas, reconhecidos por suas comunidades como aptos a distribuir o sacramento da Eucaristia, causando grande debate sobre o celibato. Outra discussão que se levanta no IL é sobre o papel dos ministérios, sobretudo pela grande presença de mulheres protagonizando o serviço pastoral e litúrgico nessas comunidades isoladas.

Confira as repercussões sobre o Instrumentum Laboris

As críticas ao Sínodo Pan-Amazônico: por uma Igreja mais fechada ou mais aberta?

Sínodo Pan-Amazônico tomou repercussões de diferentes cunhos. Além das críticas diretas de setores conservadores da Igreja opositores ao pontificado de Francisco, o governo brasileiro de Jair Bolsonaro manifestou preocupações pelo levantamento de questões políticas. Pelos setores progressistas, a crítica foi recorrente pelas mulheres. Assim como no Sínodo da Juventude, em 2018, organizações que defendem a igualdade dentro da Igreja levantaram protestos pelo voto feminino.

Entre os conservadores católicos as manifestações de oposição ao processo se destacaram, além dos já citados cardeais Müller e Brandmüller, pelo cardeais Raymond Burke, dos Estados Unidos, e Robert Sarah, da Guiné, e dos movimentos Tradição, Família e Propriedade (TFP) e o Instituto Plínio Corrêa de Oliveira (Ipco) - que juntos organizaram um site, em quatro idiomas, "Observatório do Sínodo Pan-Amazônico" (o Pan-Amazon Synod Watch), que serve para divulgar artigos de oposição à Assembleia Sinodal.

No campo político, o governo brasileiro assumiu publicamente sobre sua preocupação com "as interferências da Igreja" nas políticas ambientais e indigenistas na Amazônia. O presidente Jair Bolsonaro chegou a admitir que a Agência Brasileira de Inteligência (ABIN) está monitorando o processo sinodal. A CNBB foi convidada a ir ao Congresso para falar sobre o desenvolvimento do processo.

No mês de agosto a tensão entre o governo e o Sínodo se aprofundaram depois da polêmica das queimadas na Amazônia. O papa Francisco manifestou em entrevista sua preocupação com o "soberanismo" e na Praça São Pedro, após recitar o Ângelus, de 25-08, foi aplaudido pelo público ao manifestar: “Estamos todos preocupados pelos vastos incêndios que deflagraram na Amazônia. Rezemos para que, com o compromisso de todos, sejam dominados o mais rapidamente possível. Este pulmão de florestas é vital para o nosso planeta”. Devido a repercussão dos incêndios, interlocutores do governo brasileiro admitiram temor de o documento final do Sínodo tecer críticas nominando "governos e políticas públicas".

Por outro lado, mulheres de diferentes organizações cobram da Igreja por maior abertura a participação de religiosas. Será a maior participação feminina da história, porém nenhuma terá direito ao voto. Na quinta-feira, 03-10, a organização Voices of Faith organizou um protesto para que o voto feminino seja admitido no processo.

Confira algumas reportagens sobre as críticas envolvendo o Sínodo

 

40 dias pelo Rio: Navegando juntos a boa nova de Deus a caminho do Sínodo

A REPAM preparou um material para acompanhar e rezar o caminho do Sínodo Pan-Amazônico por 40 dias. Nas palavras do secretário-executivo, Maurício López: "São 40 dias, já que esse número reflete a busca pelo perfeito em Deus, ou seja, para nos prepararmos para que o que é de Deus inunde nossos corações e que o próprio do bom Espírito prevaleça nesse discernimento sinodal. É uma navegação pelos rios do interior de cada um nas águas das boas novas em direção ao Sínodo Amazônico".

Neste link você pode acompanhar o percurso navegado entre os dias 27 de agosto a 05 de outubro de 2019.

Consagração a Francisco de Assis


Celebração no dia 04-10-2019, dia de São Francisco de Assis, nos Jardins do Vaticano, com os povos indígenas. Foto: Religión Digital

Com uma azinheira de Assis plantada nos Jardins do Vaticano, simbolicamente convertido em um rincão da Amazônia. Na véspera do Sínodo Pan-Amazônico, no dia de São Francisco de AssisBergoglio presidiu uma celebração marcada pelos cânticos, a alegria e o contato com a natureza. O pai do cuidado com a natureza foi proclamado por Francisco, acompanhado dos povos indígenas presentes no Vaticano: o patrono do Sínodo da Amazônia.

 

Sobre Francisco de Assis e o Sínodo da Amazônia

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fonte: http://www.ihu.unisinos.br/593216-o-sinodo-da-amazonia-um-sopro-de-fe-das-periferias-2

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