Querida Amazonia, a Exortação do Papa por uma Igreja com rosto amazônico

A Exortação pós-sinodal sobre a Amazônia foi publicada esta quarta-feira (12/02). O documento traça novos caminhos de evangelização e cuidados do meio ambiente e dos pobres. Francisco auspicia um novo ímpeto missionário e encoraja o papel dos leigos nas comunidades eclesiais.

 

Alessandro Gisotti

“A Amazônia querida apresenta-se aos olhos do mundo com todo o seu esplendor, o seu drama e o seu mistério.” Assim tem início a Exortação apostólica pós-sinodal, Querida Amazônia. O Pontífice, nos primeiros pontos, (2-4) explica “o sentido desta Exortação”, rica de referências a documentos das Conferências episcopais dos países amazônicos, mas também a poesias de autores ligados à Amazônia. Francisco destaca que deseja “expressar as ressonâncias” que o Sínodo provocou nele. E esclarece que não pretende substituir nem repetir o Documento final, que convida a ler “integralmente”, fazendo votos de que toda a Igreja se deixe “enriquecer e interpelar” por este trabalho e que a Igreja na Amazônia se empenhe “na sua aplicação”. O Papa compartilha os seus “Sonhos para a Amazônia” (5-7), cujo destino deve preocupar a todos, porque esta terra também é “nossa”. Assim, formula “quatro grandes sonhos”: que a Amazônia “que lute pelos direitos dos mais pobres”, “que preserve a riqueza cultural”, que “que guarde zelosamente a sedutora beleza natural”, que, por fim, as comunidades cristãs sejam “capazes de se devotar e encarnar na Amazônia”.

 

O sonho social: a Igreja ao lado dos oprimidos

O primeiro capítulo de Querida Amazônia é centralizado no “Sonho social” (8). Destaca que “uma verdadeira abordagem ecológica” é também “abordagem social” e, mesmo apreciando o “bem viver” dos indígenas, adverte para o “conservacionismo”, que se preocupa somente com o meio ambiente. Com tons vibrantes, fala de “injustiça e crime” (9-14). Recorda que já Bento XVI havia denunciado “a devastação ambiental da Amazônia”. Os povos originários, afirma, sofrem uma “sujeição” seja por parte dos poderes locais, seja por parte dos poderes externos. Para o Papa, as operações econômicas que alimentam devastação, assassinato e corrupção merecem o nome de “injustiça e crime”. E com João Paulo II, reitera que a globalização não deve se tornar um novo colonialismo.

Os pobres sejam ouvidos sobre o futuro da Amazônia

Diante de tanta injustiça, o Pontífice fala que é preciso “indignar-se e pedir perdão” (15-19). Para Francisco, são necessárias “redes de solidariedade e de desenvolvimento” e pede o comprometimento de todos, inclusive dos líderes políticos. O Papa ressalta o tema do “sentido comunitário” (20-22), recordando que, para os povos amazônicos, as relações humanas “estão impregnadas pela natureza circundante”. Por isso, escreve, vivem como um verdadeiro “desenraizamento” quando são “forçados a emigrar para a cidade”. A última parte do primeiro capítulo é dedicado às “Instituições degradadas” (23-25) e ao “Diálogo social” (26-27). O Papa denuncia o mal da corrupção, que envenena o Estado e as suas instituições. E faz votos de que a Amazônia se torne “um local de diálogo social” antes de tudo “com os últimos. A voz dos pobres, exorta, deve ser “a voz mais forte” sobre a Amazônia.

O sonho cultural: cuidar do poliedro amazônico

O segundo capítulo é dedicado ao “sonho cultural”. Francisco esclarece que “promover a Amazônia” não significa “colonizá-la culturalmente” (28). E recorre a uma imagem que lhe é cara: “o poliedro amazônico” (29-32). É preciso combater a “colonização pós-moderna”. Para Francisco, é urgente “cuidar das raízes” (33-35). Citando Laudato si’ Christus vivit, destaca que a “visão consumista do ser humano” tende a “a homogeneizar as culturas” e isso afeta sobretudo os jovens. A eles, o Papa pede que assumam as raízes, que recuperem “a memória danificada”.

Não a um indigenismo fechado, é preciso um encontro intercultural

A Exortação se concentra depois sobre o “encontro intercultural” (36-38). Mesmo as “culturas aparentemente mais evoluídas”, observa, podem aprender com os povos que “desenvolveram um tesouro cultural em conexão com a natureza”. A diversidade, portanto, não deve ser “uma fronteira”, mas “uma ponte”, e diz não a “um indigenismo completamente fechado”. A última parte do segundo capítulo é dedicada ao tema “culturas ameaçadas, povos em risco” (39-40). Em qualquer projeto para a Amazônia, esta é a recomendação do Papa, “é preciso assumir a perspectiva dos direitos dos povos”. Estes, acrescenta, dificilmente podem ficar ilesos se o ambiente em que nasceram e se desenvolveram “se deteriora”.

O sonho ecológico: unir cuidado com o meio ambiente e cuidado com as pessoas

O terceiro capítulo, “Um sonho ecológico”, é o mais relacionado com a Encíclica Laudato si’. Na introdução (41-42), destaca-se que na Amazônia existe uma relação estreita do ser humano com a natureza. Cuidar dos irmãos como o Senhor cuida de nós, reitera, “é a primeira ecologia que precisamos”. Cuidar do meio ambiente e cuidar dos pobres são “inseparáveis”. Francisco dirige depois a atenção ao “sonho feito de água” (43-46). Cita Pablo Neruda e outros poetas locais sobre a força e a beleza do Rio Amazonas. Com suas poesias, escreve, “ajudam a libertar-nos do paradigma tecnocrático e consumista que sufoca a natureza”.

Ouvir o grito da Amazônia, o desenvolvimento seja sustentável

Para o Papa, é urgente ouvir o “grito da Amazônia” (47-52). Recorda que o equilíbrio planetário depende da sua saúde. Escreve que existem fortes interesses não somente locais, mas também internacionais. A solução, portanto, não é “a internacionalização” da Amazônia; ao invés, deve crescer “a responsabilidade dos governos nacionais”. O desenvolvimento sustentável, prossegue, requer que os habitantes sejam sempre informados sobre os projetos que dizem respeito a eles e auspicia a criação de “um sistema normativo” com “limites invioláveis”. Assim, Francisco convida à “profecia da contemplação” (53-57). Ouvindo os povos originários, destaca, podemos amar a Amazônia “e não apenas usá-la”; podemos encontrar nela “um lugar teológico, um espaço onde o próprio Deus Se manifesta e chama os seus filhos”. A última parte do terceiro capítulo é centralizada na educação e hábitos ecológicos” (58-60). O Papa ressalta que a ecologia não é uma questão técnica, mas compreende sempre “um aspecto educativo”.

O sonho eclesial: desenvolver uma Igreja com rosto amazônico

O último capítulo, o mais denso, é dedicado “mais diretamente” aos pastores e aos fiéis católicos e se concentra no “sonho eclesial”. O Papa convida a “desenvolver uma Igreja com rosto amazônico” através de um “grande anúncio missionário” (61), um “anúncio indispensável na Amazônia” (62-65). Para o Santo Padre, não é suficiente levar uma “mensagem social”. Esses povos têm “direito ao anúncio do Evangelho”; do contrário, “cada estrutura eclesial transformar-se-á em mais uma ONG”. Uma parte consistente é dedicada ainda à inculturação. Retomando a Gaudium et spes, fala de “inculturação (66-69) como um processo que leva “à plenitude à luz do Evangelho” aquilo que de bom existe nas culturas amazônicas.

Uma renovada inculturação do Evangelho na Amazônia

O Papa dirige o seu olhar mais profundamente, indicando os “Caminhos de inculturação na Amazônia”. (70-74). Os valores presentes nas comunidades originárias, escreve, devem ser valorizados na evangelização. E nos dois parágrafos sucessivos se detém sobre a “inculturação social e espiritual” (75-76). O Pontífice evidencia que, diante da condição de pobreza de muitos habitantes da Amazônia, a inculturação deve ter um “timbre marcadamente social”. Ao mesmo tempo, porém, a dimensão social deve ser integrada com aquela “espiritual”.

Os Sacramentos devem ser acessíveis a todos, especialmente aos pobres

Na sequência, a Exortação indica “pontos de partida para uma santidade amazônica” (77-80), que não devem copiar “modelos doutros lugares”. Destaca que “é possível receber, de alguma forma, um símbolo indígena sem o qualificar necessariamente como idolátrico”. Pode-se valorizar, acrescenta, um mito “denso de sentido espiritual” sem necessariamente considerá-lo “um extravio pagão”. O mesmo vale para algumas festas religiosas que, não obstante necessitem de um “processo de purificação”, “contêm um significado sagrado”.

Outra passagem significativa de Querida Amazônia é sobre a inculturação da liturgia (81-84). O Pontífice constata que já o Concílio Vaticano II havia solicitado um esforço de “inculturação da liturgia nos povos indígenas”. Além disso, recorda numa nota do texto que, no Sínodo, “surgiu a proposta de se elaborar um «rito amazônico»”. Os Sacramentos, exorta, “devem ser acessíveis, sobretudo aos pobres”. A Igreja, afirma evocando a Amoris laetitia, não pode se transformar numa “alfândega”.

Bispos latino-americanos devem enviar missionários à Amazônia

Relacionado a este tema, está a “inculturação do ministério” (85-90) sobre a qual a Igreja deve dar uma resposta “corajosa”. Para o Papa, deve ser garantida “maior frequência da celebração da Eucaristia”. A propósito, reitera, é importante “determinar o que é mais específico do sacerdote”. A resposta, lê-se, está no sacramento da Ordem sacra, que habilita somente o sacerdote a presidir a Eucaristia. Portanto, como “assegurar este ministério sacerdotal” nas zonas mais remotas? Francisco exorta todos os bispos, especialmente os latino-americanos, “a ser mais generosos”, orientando os que “demonstram vocação missionária” a escolher a Amazônia e os convida a rever a formação dos presbíteros.

Favorecer um protagonismo dos leigos nas comunidades

Depois dos Sacramentos, Querida Amazonía fala das “comunidades cheias de vida” (91-98), nas quais os leigos devem assumir “responsabilidades importantes”. Para o Papa, com efeito, não se trata “apenas de facilitar uma presença maior de ministros ordenados”. Um objetivo “limitado” se não suscitar “uma nova vida nas comunidades”. São necessários, portanto, novos “serviços laicais”. Somente através de “um incisivo protagonismo dos leigos”, reitera, a Igreja poderá responder aos “desafios da Amazônia”. Para o Pontífice, os consagrados têm um lugar especial e não deixa de recordar o papel das comunidades de base, que defenderam os direitos sociais, e encoraja em especial a atividade da REPAM e dos “grupos missionários itinerantes”.

Novos espaços às mulheres, mas sem clericalizações

Francisco dedica um espaço à força e ao dom das mulheres (99-103). Reconhece que, na Amazônia, algumas comunidades se mantiveram somente “graças à presença de mulheres fortes e generosas”. Porém, adverte que não se deve reduzir a Igreja a “estruturas funcionais”. Se assim fosse, com efeito, teriam um papel somente se fosse concedido a elas acesso à Ordem sacra. Para o Pontífice, deve ser rejeitada a clericalização das mulheres, acolhendo, ao invés, a contribuição segundo o modo feminino, que prolonga “a força e a ternura de Maria”. Francisco encoraja o surgimento de novos serviços femininos, que – com um reconhecimento público dos bispos – incidam nas decisões para as comunidades.

Os cristãos devem lutar juntos para defender os pobres da Amazônia

Para o Papa, é preciso “ampliar horizontes para além dos conflitos” (104-105) e deixar-se desafiar pela Amazônia a “superar perspectivas limitadas” que “permanecem enclausuradas em aspetos parciais”. O quarto capítulo termina com o tema da “convivência ecumênica e inter-religiosa” (106-110), “encontrar espaços para dialogar e atuar juntos pelo bem comum”. “Como não lutar juntos? – questiona Francisco – Como não rezar juntos e trabalhar lado a lado para defender os pobres da Amazônia”?

Confiemos a Amazônia e os seus povos a Maria

Francisco conclui a Querida Amazônia com uma oração à Mãe da Amazônia (111). “Mãe, olhai para os pobres da Amazônia – é um trecho da sua oração –, porque o seu lar está a ser destruído por interesses mesquinhos (…) Tocai a sensibilidade dos poderosos porque, apesar de sentirmos que já é tarde, Vós nos chamais a salvar o que ainda vive”.

 

fonte: https://www.vaticannews.va/pt/papa/news/2020-02/querida-amazonia-exortacao-papa-francisco-pos-sinodal.html


Cardeal Hummes: Querida Amazonia traz repercussão local, mas também fala ao mundo

Em entrevista exclusiva ao Vatican News, cardeal Cláudio Hummes, relator-geral do Sínodo dos Bispos para a Amazônia e também presidente da Repam (Rede Eclesial Pan-amazônica), falou sobre como atuar o documento “Querida Amazonia”, do Papa Francisco, na realidade daquela região: “é a continuação do processo. Claro que isso tem também uma repercussão para todo o mundo, não apenas na Amazônia. Mas, de modo muito específico, o Sínodo quis tratar da realidade amazônica e da sua gente amazônica e da Igreja na Amazônia".
 

Silvonei José, Andressa Collet – Cidade do Vaticano

No final da manhã desta quarta-feira (12), em Brasília, a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) e a Rede Eclesial Pan-Amazônica (REPAM) promoveram uma coletiva de imprensa sobre a Exortação Apostólica e os desdobramentos no Brasil. Além do arcebispo de Belo Horizonte e presidente da CNBB, dom Walmor Oliveira de Azevedo, estava presente o cardeal Cláudio Hummes, relator-geral do Sínodo dos Bispos para a Amazônia, de outubro do ano passado, e também presidente da Repam (Rede Eclesial Pan-amazônica).

Traduzindo para a realidade da Amazônia

Em entrevista exclusiva ao Vatican News, dom Cláudio falou sobre como atuar o documento “Querida Amazonia”, do Papa Francisco, na realidade daquela região.

“É a continuação do processo, exatamente. Claro que isso tem também uma repercussão para todo o mundo, não apenas na Amazônia. É como a Laudato si’, que já tocou nos pontos fundamentais, e esse Sínodo é um fruto também da Laudato si’, não só, mas também da Laudato si’, então, isso realmente tem a ver também com toda a questão ecológica e socioambiental. Social, na questão da pobreza, a ecologia, a questão cultural, enfim, tudo isso tem a ver com a comunidade mundial inteira e com a Igreja universal em todo mundo. Mas, de modo muito específico, o Sínodo quis tratar da realidade amazônica e da sua gente amazônica e da Igreja na Amazônia. Então, nós temos que, de fato, continuar agora esse processo, voltando às bases, e, ali, começando também a construir algumas das organizações necessárias como, por exemplo, esse organismo eclesial para a Pan-Amazônia que está previsto ali para a Amazônia. Um organismo eclesial que vai, na verdade, e de alguma forma, coordenar e animar todo esse processo. Outras coisas dizem respeito, por exemplo, à questão da educação, da comunicação, que são grandes áreas que deverão ser imediatamente retomadas para ver como é que nós vamos conseguir realmente fazer uma comunicação para todo esse processo, porque a comunicação é fundamental. E quais são os instrumentos que nós temos e de que forma nós vamos poder escutar e devolver sempre de novo aquilo que vai ser no processo. Como, também, a questão da educação: de como ir educando numa Educação inclusiva e de escuta, onde esse processo todo não é uma educação de ensino, que ensina coisas, mas que vai formando convicções e vai formando práticas adequadas a toda a questão que o Sínodo se pôs.”

Os pontos de análise

Dom Claudio, então, respondeu sobre o debate gerado em relação ao celibato e a possibilidade de ordenar sacerdotes casados:

“Será difícil dizer se vai frustrar ou não frustrar. Não sei dizer isso. As pessoas que se dirão frustradas deverão dizer isso, não tem nenhuma se vai frustrar pessoas. Repito porque o Papa deixou claro que o documento todo, não alguns números sim, outros não, mas o documento todo seja levado a prática.”

A tarefa pós-sinodal

O convite de Dom Cláudio, então, reflete o mesmo do Papa Francisco para que a Igreja acolha a “Querida Amazonia” e a ponha em prática:

“Na verdade é um texto muito bonito e muito significativo, de muito conteúdo, onde o Papa, de fato, apresenta o documento e diz que a Igreja acolha o documento, que a Igreja leia o documento, que a Igreja ponha em prática. Ele diz claramente que a Igreja toda se esforce para pôr em prática esse documento final. E, por isso mesmo, ele não cita nenhum número, nenhum texto do Documento Final, exatamente pra dizer que não há textos que podem se deixar de lado – uns sim, outros não. É o texto todo que a Igreja deve procurar pôr em prática. Isso está muito claro, mas isso dentro de um processo, que  também o Papa deixou muito claro, que é um processo. E, portanto, nós voltamos também com toda essa documentação - seja o Documento Final, seja a Exortação do Papa, nós voltaremos às bases para ali, de novo, começarmos junto com o povo, começar a construir esses caminhos. Como, então, construir esses caminhos agora, nesse momento do processo - um processo que teve um ponto alto, sim, no Sínodo, mas não terminou ali. É um caminho que  ainda temos que percorrer, continuarpercorrendo, como a Igreja deverá fazer sempre na história.”

*O título da Exortação Pós-Sinodal “Querida Amazonia” segue a grafia do texto original em língua espanhola.

fonte: https://www.vaticannews.va/pt/vaticano/news/2020-02/dom-claudio-hummes-sinodo-repam-exortacao-querida-amazonia.html


O que se diz para a Amazônia, serve para a Igreja inteira: reconstruir a nossa profecia

O que se diz para a Amazônia, serve para a Igreja inteira: reconstruir a nossa profecia

“O que se diz para a Amazônia serve para a Igreja inteira, à luz daquilo que vem do modelo e da dinâmica da Amazônia. A exortação pós-sinodal Querida Amazônia é para dizer para nossa Igreja que temos que reconstruir a nossa profecia”. Assim comentou o arcebispo de Belo Horizonte (MG) e presidente da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), dom Walmor Oliveira de Azevedo, sobre a Exortação Apostólica pós-sinodal Querida Amazônia, publicada nesta quarta-feira, 12 de fevereiro, durante entrevista coletiva à imprensa realizada na sede da CNBB, em Brasília.

Foto: Daniel Flores

Nesta manhã, dom Walmor esteve ao lado do arcebispo emérito de São Paulo (SP) e presidente da Comissão Episcopal para a Amazônia da CNBB, cardeal Cláudio Hummes, que também preside a Rede Eclesial Pan-Amazônica (Repam), para apresentar os principais pontos do texto divulgado hoje pela Santa Sé. O presidente da CNBB iniciou ressaltando que o processo do Sínodo para a Amazônia, de onde surge a exortação apostólica, é um caminho que não se encerra e que “somos chamados a percorrer com novo ardor missionário”.

Dom Walmor frisou que a exortação apostólica Querida Amazônia não é um decreto, mas um “convite a sonhar”. Este chamado do Papa Francisco “coloca a nossa Igreja numa perspectiva muito e profundamente desafiadora” de “reconstruir a nossa profecia”. Esta profecia, continuou, não é simplesmente de palavras, mas é aquela que “possa costurar um novo entendimento e práticas e mudanças transformadoras”.

Se nós conseguirmos como Igreja entrar nesse caminho bonito do sínodo, do seu documento final e neste horizonte inspirador e interpelante da exortação sinodal, eu tenho certeza que a nossa Igreja vai dar muitos passos de transformação para dentro e de corajosa presença pública na sociedade por sua transformação”, afirmou dom Walmor.

O documento

O cardeal Cláudio Hummes apresentou uma síntese da exortação apostólica pós-sinodal Querida Amazônia, durante a coletiva de imprensa. O presidente da Repam foi relator geral da Assembleia do Sínodo dos Bispos e recordou o processo de preparação e o contexto no qual foi promovida a reflexão sobre os “novos caminhos para a Igreja e a para uma ecologia integral”.

Dom Cláudio contextualizou o momento em que a Igreja está diante “da grande problemática ecológica e socioambiental” que se coloca à humanidade, e quer ajudar a vencer essas crises globais. “O grito dos pobres é o mesmo grito da terra” afirmou. E a reflexão é “como caminhar junto e conseguir escutar esse grito e ajudar, com aqueles que estão gritando, a construir o futuro”.

O que é central no texto, é “o amor de Pastor à gente e ao território da Amazônia”, segundo dom Cláudio, o que está expresso no título. O grande sentido da exortação, está no parágrafo 2 do texto. Na sequência, o texto tem o pedido de empenho na aplicação das indicações do documento final do Sínodo.

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Os sonhos

A partir das quatro conversões propostas no documento final do sínodo, o Papa apresenta seus sonhos para a Amazônia: social, cultural, ecológico e eclesial. Estes são os quatro capítulos da exortação apostólica.

Social

Dom Cláudio chamou atenção que este sonho vem em primeiro lugar, pois primeiro são as pessoas, os pobres, machucados, esquecidos, abandonados, marginalizados.

Cultural

“As culturas ali tem sempre dois aspectos: as culturas dos povos dali, mas também a biodiversidade e todo o ambiente. E como as muitas culturas, há muitas formas de vida que tem que ser protegidas, tem que ser cuidadas. Assim a gente pode dizer que a água cuida da floresta, a floresta cuida da água e os povos originários cuidam desse sistema todo e fazem com que ele possa realmente proceder cuidando-se uns aos outros. De novo essa questão de que está tudo interligado”.

Ecológico

“Aqui fala sobre ambiente, sobre território, a questão ecológica que ele abordou tão fortemente na Laudato Si’, ele aborda aqui. Ele fala que esse sonho foi feito de água. A questão da água é fundamental na questão ecológica. Fala-se da escassez da água, uma realidade muito conflitiva que a Igreja tem que participar dessa atividade de superar”.

Eclesial

“Se trata da Igreja na Amazônia, não é uma ONG ou instituição governamental que está falando. O sínodo é a Igreja que fala sobre a sua missão, o seu trabalho, a sua necessidade de ser capaz de novos caminhos para sua própria missão. Ali entra a questão da Eucaristia. Ele fala explicitamente da questão da falta da Eucaristia, quando a Eucaristia, de fato, edifica a Igreja e que a Igreja não pode deixar de estar preocupada e não pode deixar de procurar uma solução para que os povos e comunidades tenham a eucaristia. Não apenas a comunhão eucarística, mas a reunião, a assembleia eucarística. O que edifica a Igreja é a assembleia eucarística reunida celebrando a memória de Jesus Cristo”.

Foto: Daniel Flores

Perspectivas dos sonhos

Dom Walmor Oliveira comentou a metodologia do Papa de recorrer aos sonhos para apresentar suas aspirações para a Amazônia e apresentou algumas perspectivas dessa figura. Na psicanálise, sonhos significam “remeter-se às raízes, que mexidas produzem um novo jeito da gente ser”. Sonhar, portanto, é o convite do Papa, que nos remete a olhar raízes que produzam frutos diferentes se tiver espaço, luminosidade, inspiração adequada. Do ponto de vista poético, sonhar é não aceitar que a realidade continue do jeito que está. A poesia nos ajuda de maneira muito decisiva e realista a conceber caminhos novos para algo que consideramos que não consegue dar as respostas adequadas. Do ponto de vista existencial, se nós não formos movidos por sonhos, não damos conta de viver. Do ponto de vista social o convite de um sonho é nutrir essa indignação e essa inconformação. Portanto não é um decreto, mas é um sonho para dizer ‘É preciso fazer um novo caminho”.

Cântico

Cardeal Cláudio Hummes e dom Walmor Oliveira | Foto: Daniel Flores

“Todo o texto é um cântico do Papa, é um louvor diante da beleza que Deus oferece”, afirmou dom Cláudio ao recordar os vários textos literários ou poéticos que são reproduzidos na exortação. Um exemplo é a “Carta de navegar (pelo Tocantins amazônico)” de dom Pedro Casaldáliga, bispo emérito de São Félix do Araguaia.

Dom Cláudio Hummes também ressaltou a necessidade de se indignar, “mas sempre disposto ao diálogo”. Sublinhou que o documento apresenta novos modelos econômicos e de desenvolvimento frente a economia que destrói. Sobre a conversão da Igreja, falou da proposta de inculturar-se: “reconhecer a riqueza e o direito que os povos têm de ser cristãos na sua cultura”, mas chamou atenção para ter cuidado com o colonialismo.

A reforma da Igreja iniciada pelo Papa Francisco, ganha a contribuição da exortação que também incentiva que a Igreja seja mais missionária, inculturada, sinodal – que escuta o povo e acolhe o sensus fidei (sentido da fé pelo povo de Deus). Ainda sobre a realidade eclesial, o Papa Francisco pede perdão pelas ofensas, pelos crimes cometidos contra os povos nativos e pelos crimes que se seguiram ao longo da história.

Documento final

Mesmo não citado na exortação apostólica, o documento final do Sínodo, aprovado por dois terços dos padres sinodais, faz parte do processo, “é uma memória e tesouro das escutas e do que se discutiu no sínodo”, destacou dom Walmor Oliveira de Azevedo.

 

Leia a íntegra da Exortação Apostólica Querida Amazônia

 

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fonte: https://www.cnbb.org.br/o-que-se-diz-para-a-amazonia-serve-para-a-igreja-inteira-reconstruir-a-nossa-profecia/


Os "grandes sonhos" de Francisco para a Amazônia

O olhar do Papa sobre a região: caminhos concretos para uma ecologia humana que leve em conta os pobres, para a valorização das culturas e para uma Igreja missionária com rosto amazônico.
 

Andrea Tornielli

"O sonho é um lugar privilegiado para procurar a verdade. E também Deus tantas vezes escolheu falar nos sonhos". Estas palavras pronunciadas por Francisco em dezembro de 2018, numa homilia na Missa em Santa Marta e referindo-se a São José, um homem silencioso e concreto, ajudam-nos a compreender o olhar do Papa sobre a Amazônia através da Exortação Pós-sinodal. Um texto escrito como uma carta de amor, onde abundam citações de poetas que ajudam o leitor a entrar em contato com a maravilhosa beleza daquela região, mas também com seus dramas diários. Por que o Bispo de Roma quis dar um valor universal a um Sínodo limitado a uma região específica? Por que a Amazônia e seu destino nos preocupam?

Percorrendo as páginas da exortação, surge a resposta. Primeiro porque tudo está interligado: o equilíbrio do nosso planeta depende também do estado de saúde da Amazônia. E como o cuidado das pessoas e o cuidado dos ecossistemas não podem ser separados, não nos devem deixar indiferentes nem a destruição da riqueza humana e cultural dos povos indígenas, nem as devastações e as políticas extrativistas que destroem as florestas. Mas há outro elemento que torna a Amazônia universal. De certa forma, as dinâmicas que ali se manifestam antecipam desafios já próximos a nós: os efeitos de uma economia globalizada e de um sistema financeiro cada vez mais insustentável na vida dos seres humanos e do meio ambiente; a convivência entre povos e culturas profundamente diversos; as migrações; a necessidade de proteger a criação, que corre o risco de ficar irremediavelmente ferida.

A "Querida Amazônia", protagonista da carta de amor de Francisco, representa antes de tudo um desafio para a Igreja, chamada a encontrar novos caminhos de evangelização, anunciando o coração da mensagem cristã, aquele kerigma que torna presente o Deus de misericórdia que tanto amou o mundo que sacrificou seu Filho na cruz. O homem, na Amazônia, não é a doença a ser combatida para curar o meio ambiente. Os povos originais da Amazônia devem ser preservados com suas culturas e tradições. Mas eles também têm direito a um testemunho evangélico. Eles não devem ser excluídos da missão, do cuidado pastoral de uma Igreja bem representada pelos rostos queimados pelo sol de tantos missionários idosos, capazes de fazer dias e dias de canoa somente para se encontrar com pequenos grupos de pessoas e para levar-lhes a carícia de Deus junto com o conforto regenerador dos seus sacramentos.

Com sua exortação, o Papa Francisco testemunha um olhar que vai além das diatribes dialéticas que acabaram representando o Sínodo quase como um referendo sobre a possibilidade de ordenar sacerdotes homens casados. Uma questão que foi discutida durante muito tempo e que pode ainda ser discutida no futuro, porque "a perfeita e perpétua continência" não é "certamente solicitada pela natureza mesma do sacerdócio", como afirmou o Concílio Ecumênico Vaticano II. Questão sobre a qual o Sucessor de Pedro, depois de ter rezado e meditado, decidiu responder, não prevendo mudanças ou outras possibilidades de exceções em relação às já previstas pela disciplina eclesiástica atual, mas pedindo para recomeçar do essencial. De uma fé vivida e encarnada, de um renovado impulso missionário fruto da graça, isto é, do deixar espaço à ação de Deus, e não das estratégias de marketing ou das técnicas de comunicação dos influenciadores religiosos.

"Querida Amazônia" convida a uma resposta "específica e corajosa" ao repensar a organização e os ministérios eclesiásticos. Chama à responsabilidade toda a Igreja católica, para que sinta as feridas daqueles povos e as dificuldades das comunidades impossibilitadas de celebrar a Eucaristia dominical, e lhes responda com generosidade, enviando novos missionários, valorizando todos os carismas e concentrando-se mais em novos serviços e ministérios não ordenados, a serem confiados de maneira estável e reconhecida aos leigos e às mulheres. Precisamente ao citar a insubstituível contribuição das mulheres, Francisco recorda que na Amazônia a fé foi transmitida e mantida viva graças à presença das mulheres "fortes e generosas", sem que "nenhum sacerdote passasse por aqueles lugares".

 

fonte: https://www.vaticannews.va/pt/vaticano/news/2020-02/os-grandes-sonhos-de-francesco-para-a-amazonia.html


Quinze anos da morte da missionária irmã Dorothy Stang

No dia da publicação da Exortação pós-sinodal sobre a Amazônia, o jornal L'Osservatore Romano recordou na edição desta quarta-feira a irmã Dorothy Mae Stang, assassinada em 2005 por criminosos que se opunham ao seu corajoso compromisso contra o desmatamento das florestas.
 
 

Silvonei José - Cidade do Vaticano

O nome dela era Dorothy Mae Stang, mas para todos era irmã Dorote. Onde ela está sepultada - no acampamento de Boa Esperança, em Anapu (Pará), junto à floresta amazônica que era toda a sua vida - uma simples cruz azul, feita de madeira, no meio de flores. Seis tiros foram disparados contra ela em 12 de fevereiro de 2005, por criminosos que não gostavam de seu corajoso compromisso contra o desmatamento, o que a levou a desafiar empresários e proprietários de terras, recebendo ameaças de morte em várias ocasiões. Fechou os olhos aos 73 anos de idade, com a Bíblia na mão, a sua única "arma".

Não é por acaso que a apresentação da exortação apostólica pós-sinodal Querida Amazônia coincidiu com os quinze anos da morte desta religiosa estadunidense, pertencente à congregação das Irmãs de Nossa Senhora de Namur, missionária no Brasil desde 1966, sempre ao lado de camponeses e operários. Dorothy Stang, pelo seu sacrifício, "testemunho de fé", representa um dos exemplos mais brilhantes de devoção ao Evangelho aplicado na ação, ao lado dos mais humildes, dos sem voz.

Ela representa todos aqueles religiosos, sacerdotes, irmãos, diáconos, leigos, que todos os anos perdem a vida no mundo em nome da fé. Muitos caíram em defesa dos povos indígenas, como Paul McAuley, dos Irmãos das Escolas Cristãs, um religioso britânico assassinado na Amazônia peruana, ou Dilma Ferreira da Silva, líder do Movimento das pessoas danificadas pela construção de barragens (também ela assassinada no Estado do Pará), como o missionário comboniano italiano Ezechiele Ramin, ou monsenhor Alejandro Labaka, morto a tiros em 1987 no Equador, junto com a irmã Inés Arang.

A história da vida de Dorothy Stang - escreve a irmã Roseanne Murphy no livro Mártir da Amazônia (Bolonha, Emi) - "continuará a inspirar inúmeras pessoas a manter vivos os seus ideais não só no Brasil, mas em todos os lugares onde há pessoas que sentem o peso da opressão". Em Anapu Irmã Dorote fundou o sindicato dos agricultores locais, promoveu a construção de vinte e três escolas em uma área onde a educação estava ausente, ensinou técnicas agrícolas sustentáveis, fez os indígenas entenderem a importância de lutar por seus direitos. Ela mostrou a todos "o que pode fazer quem tem fé, coragem e determinação para mudar uma parte do mundo que precisa desesperadamente de justiça". É por isso que "a sua história está longe de ser concluída".

Nesta quarta-feira, como em todos os aniversários de sua morte, centenas de pessoas se reuniram ao redor daquele túmulo na floresta. Entre eles estavam representantes das muitas comunidades de base que surgiram especialmente depois do sacrifício de Dorothy Stang, para compartilhar o Evangelho e vivê-lo, como ela havia ensinado. Querida Amazônia é, portanto, também uma justa homenagem a esta pequena mulher, campeã da justiça social, e a todos aqueles que deram suas vidas para defender sua fé.

fonte: https://www.vaticannews.va/pt/igreja/news/2020-02/quinze-anos-da-morte-da-missionaria-irma-dortohy-stang.html

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