“Bergoglio pede tempo, mas os tradicionalistas já alcançaram o seu objetivo”. Entrevista com Daniele Menozzi

Dizer “sim” aos padres casados na Amazônia arriscaria provocar um cisma na Igreja Católica Romana. Por isso, o pontífice parou antes e, em certo sentido, entregou a questão ao seu sucessor, quando os tempos, talvez, estarão maduros para uma escolha dessas.

A reportagem é de Luca Kocci, publicada em Il Manifesto, 13-02-2020. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Essa é a leitura da exortação pós-sinodal do Papa Francisco feita por Daniele Menozzi, professor emérito de História Contemporânea na Normale di Pisa e estudioso do papado na Idade Moderna e Contemporânea.

Eis a entrevista.

Professor Menozzi, como o senhor interpreta o fechamento do papa à possibilidade de ordenar padres os diáconos permanentes casados, como havia proposto o Sínodo dos Bispos da Amazônia?

Desde as frases iniciais, a exortação adverte que não pretende abordar todas as questões presentes no documento final do Sínodo, mas tratar daquelas que refletem as principais preocupações atuais do papa. O silêncio sobre o celibato significa apenas que Bergoglio não considera que o tema do celibato seja uma questão central na atual situação da Igreja universal. Ao mesmo tempo, a exortação insiste na especificidade das múltiplas inculturações que a mensagem da Igreja assume no espaço e no tempo. É o reconhecimento da grande variedade de estruturas que as Igrejas locais podem assumir em relação aos seus contextos peculiares. Desse modo, deixa-se aberta a porta para uma futura mudança disciplinar nessa matéria.

No documento, destaca-se primeiro a centralidade da Eucaristia e as dificuldades de muitas comunidades das regiões mais remotas da Amazônia de celebrá-la por falta de padres. Mas depois se reitera que somente os padres podem dizer missa: não é uma contradição?

O papa afirma que uma mudança em relação ao nexo entre o sacramento da ordem e a presidência da Eucaristia constituiria uma mudança que não seria recebida no nível da Igreja universal. Embora mostrando-se consciente do problema, ele pretende advertir que a solução proposta no documento sinodal, neste momento, colocaria em questão a unidade eclesial.

Nem mesmo para as mulheres parece haver espaços a mais em comparação com os atuais. É isso mesmo?

O fechamento da ordenação feminina é acompanhado por duas aberturas, já presentes, aliás, no magistério anterior do papa: recomenda-se que as mulheres acessem a responsabilidade do governo das comunidades eclesiais, enquanto agora desempenham predominantemente papéis de serviço; e se convida ao aprofundamento teológico, para que se encontrem novas funções reservadas a elas, capazes de valorizar plenamente a sua presença eclesial.

Não lhe parece que, na exortação, emerge uma forte continuidade com o magistério dos antecessores de Francisco, o Papa Ratzinger e principalmente o Papa Wojtyla?

Não há recuos em relação às posições reformistas expressadas anteriormente, mas também não são desenvolvidas e traduzidas em medidas concretas. Diante do crescimento de uma oposição que a presença de um papa emérito, habilmente instrumentalizado também por setores da Cúria Romana, torna perigosa para a unidade da Igreja, Francisco se delonga explicando aos opositores as razões que justificam as escolhas feitas. Pode-se dizer que os tradicionalistas alcançaram o seu objetivo: impedir que o processo reformador avance. Mas o projeto do neocristandade alimentado por João Paulo II e, mais ainda, por Bento XVI entrou definitivamente em declínio.

No fim do documento, o papa menciona o debate desses meses, com uma referência implícita ao nó dos padres casados “sim-não”, e explica que “o conflito supera-se em um nível superior”. O senhor acha que essa síntese superior pode surgir, no fim?

Não há nenhuma síntese superior, mas também não há uma escolha conservadora. Penso que o papa reconhece que, neste momento, os equilíbrios eclesiais não permitem, para evitar uma dilaceração interna à Igreja, que se realizem as mudanças que os setores eclesiais aos quais ele se mostra simpático lhe pediram. Essa passagem significa um convite a trabalhar para superar as oposições e encontrar uma solução. Provavelmente, é a constatação do limite intransponível ao qual o seu governo chegou e uma passagem de bastão ao sucessor.

Em uma síntese extrema: é a vitória dos defensores da tradição e a derrota dos reformadores?

Não. Os tradicionalistas conseguiram bloquear o desenvolvimento do processo reformador, mas os pressupostos culturais do processo são plenamente reafirmados no documento. Eu acho que o papa está convencido de que é necessária uma lenta obra de amadurecimento dentro da Igreja para que a reforma possa retomar o seu curso.

fonte: http://www.ihu.unisinos.br/596290-bergoglio-pede-tempo-mas-os-tradicionalistas-ja-alcancaram-o-seu-objetivo


“Papa Francisco foi obstruído. E se encontra mais sozinho a partir de hoje”

Papa Bergoglio foi obstruído. O documento pós-sinodal dedicado à Amazônia não diz uma única palavra sobre a possibilidade de ordenar sacerdotes a homens casados e também se cala sobre a possibilidade de dar um status especial às mulheres, que lideram as comunidades católicas espalhadas pela floresta amazônica.

O comentário é do vaticanista Marco Politi, publicado em Il Fatto Quotidiano, 13-02-2020. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Tendo chegado ao momento de tomar a decisão, o Papa Francisco freou bruscamente, ciente de que a oposição a uma virada era ramificada e forte, e ainda mais poderosa por ser subterrânea. É uma derrota para o impulso reformador do pontificado.

A oposição, capitaneada pelo cardeal Müller – ex-prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé –, canta a vitória. “É um documento de reconciliação”, declara Müller, acrescentando com linguagem eloquente: servirá para evitar que se formem facções intraeclesiais, para reduzir o risco de abandonos silenciosos ou a manifestação de “oposição aberta”.

Uma grande personalidade da Cúria, ex-presidente da Conferência dos Bispos da França, o cardeal Roger Etchegaray, dizia no seu tempo: “Nos primeiros tempos, Francisco gozará de uma espécie de lua de mel, mas depois chegará o momento em que ele se verá encurralado”. O momento é este.

Para Francisco, não é apenas difícil ter que constatar que as relações de poder dentro da Igreja não estão a seu favor sobre esses temas. A dificuldade em que ele foi posto é exacerbada pelo fato de Bergoglio se encontrar agora em aberta contradição consigo mesmo.

De fato, foi ele quem encorajou abertamente a discussão sobre o tema dos viri probati (homens casados de comprovada fé e moral que possam se candidatar ao sacerdócio). Foi ele quem quis que o assunto fosse tratado no Sínodo. Foi ele quem escolheu como relator geral o cardeal Claudio Hummes, abertamente favorável a essa solução. E também foi ele quem autorizou que o documento preparatório, o Instrumentum laboris, contivesse uma passagem explicitamente dedicada ao tema.

Mas, acima de tudo, Francisco se encontra em contradição com um princípio defendido por ele desde o início do pontificado: o princípio da sinodalidade, pelo qual os bispos são chamados a participar com o papa na liderança da Igreja. Francisco até emitiu um documento, de futura memória, para permitir que haja sínodos de bispos com poder deliberativo. E, agora que um Sínodo como o da Amazônia, toma uma decisão com uma maioria regular de dois terços, ele salta por cima da questão e não a menciona de modo algum.

No ano passado, o geral dos jesuítas, Pe. Arturo Sosa, confessava que, “dentro da Igreja, trava-se uma luta” e que atuam forças voltadas a influenciar o próximo conclave e a escolha do sucessor de Francisco. A obstrução imposta às aberturas sobre a ordenação de homens casados e sobre o diaconato feminino faz parte dessa guerra civil subterrânea, que agita o catolicismo.

Papa Francisco percebeu que não tem no episcopado e entre cardeais de todo o mundo aliados suficientes para impor uma virada. Porque os papas são onipotentes quando são conservadores; quando são reformistas, devem levar em conta as relações de força internas à Igreja.

Com linguagem simbólica, Francisco informou na segunda-feira passada a uma delegação de bispos estadunidenses que, sobre o tema dos sacerdotes casados, ele “não sentia” o Espírito Santo atuando no momento atual. Foi o que contou o arcebispo John Charles Wester, de Santa Fe.

Paradoxalmente, os adversários de Bergoglio também usam esse argumento de modo debochado. Na rede, pode-se ler que “o Santo Padre, há alguns dias (felizmente), foi reconduzido pelo Espírito Santo a conselhos mais mansos. (...) As suas declarações referentes aos migrantes e às inovações fora de lugar na Igreja Católica tinha há algum tempo afastado os fiéis. E a mão do Espírito Santo, na sua imensa grandeza (...), induziu Sua Santidade a ter uma atitude mais moderada”. Guerra é guerra, dizem os romanos.

A freada brusca também provoca contragolpes. É difícil acreditar que o repentino anúncio do cardeal Reinhard Marx de não querer mais se recandidatar em março para um segundo mandato à frente da Conferência dos Bispos da Alemanha não tem relação com o resultado do Sínodo.

Marx, grande defensor das reformas bergoglianas, deve ter entendido que começou uma fase de estagnação no reformismo do pontificado. E, certamente, não gostaria de passar os próximos anos defendendo os “nãos” papais ao clero casado e ao diaconato feminino: temas sobre os quais ele mesmo e uma grande parte do catolicismo de ambos os lados do Atlântico são extremamente sensíveis.

Papa Francisco se encontra hoje mais sozinho, tendo provocado decepção em uma massa considerável dos seus apoiadores. O documento pós-sinodal “Querida Amazônia” é muito bonito e estimulante na parte que diz respeito às injustiças que afetam os indígenas, à importância do cuidado da natureza, à proteção de um ambiente cultural, à necessidade de envolver na liturgia católica os elementos fundantes das tradições espirituais dos povos amazônicos. No entanto, o golpe pela falta de uma reviravolta sobre os padres casados continua sendo forte.

Porque o problema das paróquias desprovidas de sacerdotes já é dramático por toda parte. Um pároco, encarregado de acompanhar de cinco a dez paróquias (como também ocorre na Itália) não é mais um guia comunitário, mas corre o risco de se tornar um funcionário que corre de um centro para o outro.

No entanto, o documento do Sínodo, votado pelos bispos, continua sobre a mesa. Representa uma reivindicação da hierarquia eclesial amazônica. Não pode ser apagado.

Francisco, diziam em Buenos Aires, “tem a cabeça de um político”. Se espaços forem abertos, ele sempre poderá tirar da gaveta as deliberações sobre os diáconos casados a para serem ordenados sacerdotes. Elas têm um valor que não expira.

fonte: http://www.ihu.unisinos.br/596291-papa-francisco-foi-obstruido-e-se-encontra-mais-sozinho-a-partir-de-hoje


“O Papa tomou a decisão que era possível tomar, a que menos dano poderia fazer à Igreja”, escreve José María Castillo

"Se não renovar a teologia, a liturgia, o sistema de nomeação de bispos, o Direito Canônico e os inconfessáveis vínculos do clero com o capitalismo, os demais problemas – dos quais com razão nos queixamos – desta velha instituição não se resolverão com uma decisão ou um documento do Papa", escreve José María Castillo, teólogo espanhol, em comentário sobre a Exortação Apostólica "Querida Amazônia", publicado por Religión Digital, 13-02-2020. A tradução é de Wagner Fernandes de Azevedo.

Eis o comentário.

O papa Francisco tomou a decisão que era possível tomar. A decisão que menos dano poderia causar à Igreja neste momento, dado como estão as coisas. E essa decisão, agora mesmo, é por manter a Igreja unida, evitando o possível (e talvez provável) cisma que se ameaça. Uma Igreja dividida é uma ameaça mais perigosa que uma Igreja que siga tendo demasiada força o clericalismo integrista.

Melhor é esperar. Ainda que isso possa parecer covardia. Para mim, parece que, neste momento, é o mal menor. Seguramente todos necessitamos de ver a transformação dessa realidade, que estamos vivendo na sociedade e na Igreja, que é – sem dúvida alguma – uma mudança mais profunda e mais imparável do que imaginamos.

Em qualquer caso, a todos nós, cairia bem ter presente, nesta situação, a definição dogmática, que fez o Concílio Vaticano I, em 1870, na Constituição Dogmática “Dei Filius”: os cristãos “devem crer com fé divina e católica em todas aquelas coisas que se contém na palavra de Deus escrita ou tradicional, e são propostas pela Igreja para serem acreditadas como divinamente reveladas, seja por solene juízo, ou por seu magistério ordinário e universal” (Denzinger – Hunnermann, n. 3011). Tudo o que não contenha nessa definição dogmática, com absoluta segurança, pode ser modificado pela autoridade eclesiástica competente. Como sabemos, tal autoridade reside no Papa.

Agora, os problemas eclesiásticos mais sérios e pressionadores, que foram abordados no Sínodo da Amazônia, são questões que não reúnem as condições que exige essa definição dogmática.

Nem a lei do celibato, nem a desigualdade de direitos de mulheres e homens na Igreja, são problemas de fé e, portanto, imobilizados na Igreja. O Papa pode decidir, nesses assuntos, o que vê como mais conveniente e quando vê possível para o bem da sociedade e da Igreja.

Uma semana antes da renúncia de Joseph Ratzinger ao pontificado, alguém de altíssimo cargo no governo da Igreja, falou-me em uma conversa privada: “A Igreja não pode cair mais do que já caiu”. Uma instituição tão grande e tão afundada não se levanta em poucos anos. Sobretudo, quando tal instituição carrega problemas muito graves, que não se podem resolver mediante um decreto. Se não renovar a teologia, a liturgia, o sistema de nomeação de bispos, o Direito Canônico e os inconfessáveis vínculos do clero com o capitalismo, os demais problemas – dos quais com razão nos queixamos – desta velha instituição não se resolverã com uma decisão ou um documento do Papa.

Dado isso, minha proposta é que, em vez de criticarmos o Papa, unamo-nos todos a ele. Somente assim daremos os passos adiante que necessitamos dar.

renovação da Igreja não é uma questão de decreto. É uma questão de forma de viver. Sim, de viver como Jesus nos ensinou no Evangelho.

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fonte: http://www.ihu.unisinos.br/596285-o-papa-tomou-a-decisao-que-era-possivel-tomar-a-que-menos-dano-poderia-fazer-a-igreja-escreve-jose-maria-castillo

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