Palestina: a direita israelense apostou errado

De olho nas urnas e em busca de um “inimigo externo”, Netanyahu deu carta branca ao terror. Mas repúdio às expulsões e violências tece nova unidade entre os palestinos, sacode sua liderança acomodada e está prestes a gerar nova Intifada

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Publicado 17/05/2021 às 20:31 

Por Yousef Munayyer, no The Nation | Tradução: Gabriela Leite

Tenho tentado lembrar de algum momento, desde 1948, em que tantos palestinos tenham sido expostos a tal nível de violência israelense como nos últimos dias — mas não consegui recordar nenhum.

Em cidades por toda Israel, palestinos foram espancados e aterrorizados por turbas furiosas; um homem foi arrastado para fora de seu carro e brutalizado de uma maneira que muitos estão descrevendo como linchamento. Na Cisjordânia, foram alvejados e mortos em invasões do exército israelense. Em Jerusalém, famílias palestinas que enfrentam a ameaça contínua de expulsão, foram assediadas por colonos e militares. E em Gaza, aviões de guerra israelenses soltaram bomba atrás de bomba, destruindo prédios residenciais inteiros. Muitos morreram, muitos mais estão feridos. Se conseguirem sobreviver, vão testemunhar sua sociedade destruída, assim que a fumaça se dissipar.

As origens do que está acontecendo nesse momento são na mesma medida óbivas e dolorosas, mas vale a pena explicá-las e reexplicá-las a um mundo que muitas vezes não consegue — na verdade, se recusa a — ver os reais termos do sofrimento palestino.

Para entender como chegamos até aqui, é essencial começar pela história de Sheikh Jarrah. O pequeno enclave, onde várias famílias palestinas estão ameaçadas de expulsão, é talvez a causa próxima e mais imediata desta última crise. É também a mais recente expropriação de palestinos por Israel, parte de um processo de mais de 70 anos.

Desde a ocupação da Cisjordânia, em 1967, o governo israelense tem seguido várias políticas destinadas a projetar demograficamente a cidade de Jerusalém — novamente, de olho em garantir sua dominação permanente da cidade. Entre essas políticas estão a construção de colônias ilegais no perímetro, que servem para isolá-la do resto da população palestina na Cisjordânia; a restrição de circulação para negar acesso dos palestinos para e dentro do próprio município; a revogação do status de residência palestina, o que equivale à expulsão e a demolição de lares palestinos. Os israelenses também expulsam os palestinos de suas casas, como estamos testemunhando em Sheikh Jarrah, para que elas possam ser entregues aos colonos israelenses.

Essas políticas criaram um conjunto potente de ameaças, humilhações e injustiças contra os palestinos em Jerusalém. No entanto, o que está acontecendo em Sheikh Jarrah não diz respeito apenas a Jerusalém, mas reflete toda a experiência palestina. Desde o início da colonização sionista na Palestina, o objetivo é a expansão lenta e contínua do controle sobre o território, empurrando a população originária para fora, em um processo contínuo de substituição. O maior episódio foi a Nakba de 1948, quando milícias judaicas e, em seguida, o Estado de Israel despovoaram centenas de cidades e vilas, fizeram quase dois terços da população árabe palestina refugiados e, posteriormente, negaram seu retorno, primeiro pela força militar e depois pela lei. Mas o processo continuou. Nas décadas seguintes, os colonizadores se deslocaram na direção das regiões de Jerusalém, Cisjordânia e Gaza, através da construção de assentamentos, roubo de terras e força militar bruta.

Isso já seria motivo suficiente para combustão, mas há também um contexto imediato mais amplo, em que a pressão da ultradireita teocrática nacionalista está se intensificando em Israel. Suas últimas eleições trouxeram de forma definitiva os kahanistas — judeus teocráticos extremistas que buscam negar quaisquer direitos aos palestinos e abraçar a limpeza étnica — ao Parlamento, em seu número mais significativo dos últimos tempos. Ideólogos de direita há muito dominam o Knesset [parlamento isralense], mas à medida que a política é guinada cada vez mais para a direita, possibilitada pela impunidade garantida internacionalmente, há agora um espaço político aberto para o racismo mais explícito e direto que vimos (portanto, não deve ser surpresa que ele explodiu nas ruas na forma de turbas de linchamento).

Esses novos níveis de depravação coincidiram com o risco de o partido Likud, de Benjamin Netanyahu, que domina a política israelense por mais tempo do que qualquer outro, perder o poder. E ele não está sendo ameaçado por aqueles à sua esquerda, mas pelos que estão à sua direita e procuram substituí-lo.

O que torna a ameaça da permanência de Netanyahu no poder particularmente perigosa é que ele talvez seja o político israelense mais experiente quando se trata de incitar a violência de seus seguidores em momentos de turbulência política. É uma tática que ele costuma usar, e talvez a mais famosa tenha acontecido pouco antes do assassinato de seu rival político Yitzhak Rabin por um israelense de direita em 1995. Desde as eleições, em março, esses extremistas violentos iniciaram uma escalada nos ataques aos palestinos na Cisjordânia e começaram a violência em Jerusalém, gritando “morte aos árabes” enquanto marchavam pela Cidade Velha. Esses ataques, totalmente tolerados — para não dizer apoiados — pelo Estado, aumentaram ainda mais durante o mês sagrado do Ramadã, culminando primeiro com os esforços do governo israelense para fechar o Portão de Damasco e, em seguida, com os ataques brutais que vimos esta semana pelos militares israelenses dentro da mesquita de Al-Aqsa. 

Mais uma vez, esses eventos, por si só, teriam sido suficientes para conduzir a região a este momento volátil e de rápida mudança. No entanto, houve ainda outros eventos e outras mudanças — a mais notável, talvez, seja a ruptura de um experimento na política de cidadãos palestinos de Israel. A Lista Conjunta, coligação que uniu vários pequenos partidos [formados majoritariamente por árabes], certa vez alcançou 15 cadeiras no Knesset israelense, mas desta vez se desfez quando alguns partidos indicaram a disposição de apoiar um governo de Netanyahu — caso ele pagasse o preço correto. A falência desse experimento foi a falência da própria ideia de que os cidadãos palestinos em Israel poderiam ter suas queixas atendidas através da participação no governo. Quando até mesmo esses mecanismos limitados de representação vacilaram, as pessoas se prepararam para ir às ruas. No momento em que as eleições estavam acontecendo, milhares de cidadãos palestinos em Israel se juntaram na cidade de Umm al-Fahm, carregando bandeiras palestinas e cantando sobre sua amada pátria, prenunciando muitos dos eventos dos últimos dias. 

Também não foi apenas em Israel que palestinos têm se afastado das instituições que falharam com eles. No final de abril, residentes da Cisjordânia, Gaza e Jerusalém foram impedidos de expressar suas opiniões sobre seus ditos líderes na Autoridade Palestina, quando o presidente Mahmoud Abbas adiou as eleições palestinas indefinidamente. O pleito, anunciado em janeiro, teria sido o primeiro em 15 anos. Mas foi cancelado por Abbas porque parecia muito ameaçador para seu partido e seu mandato, já que Israel não permitiria que palestinos em Jerusalém participassem da votação. O impedimento dessa oportunidade limitada de expressão política, sem dúvida, contribuiu para as mobilizações de massa a que estamos assistindo.

Os veículos representativos dos palestinos, por todo o território, se quebraram de forma irreparável. Mas isso pode não ser algo ruim, já que tais veículos os levaram a um beco sem saída de fragmentação e ocupação. Muitos palestinos já tinham chegado a essa conclusão há bastante tempo, mas as manifestações de massa que começamos a acompanhar há alguns dias nas ruas de Jerusalém a Haifa, Nazaré, al-Lyd, Umm al-Fahm, Ramalá, Gaza, em campos de refugiados e na diáspora por todo o mundo mostraram que uma nova geração não apenas reconhece esse fato, como está começando a agir a respeito. Essas mobilizações que uniram os palestinos mostram uma compreensão compartilhada de sua luta, e talvez seja até uma forma embrionária de um esforço unido e coordenado contra o colonialismo israelense em todas as suas manifestações.

A luta pela liberdade é uma jornada constante, com paradas de esperança e desespero ao longo do caminho. Se por um lado os últimos dias me deram incalculáveis razões para o desespero, é na possibilidade de um esforço palestino unido, que vislumbrei nos últimos dias, que vejo um fragmento de esperança. Quando a liberdade vem, e quando a história da luta por ela está sendo escrita, eu espero que esse momento venha a ser de transformação. Para que isso aconteça, todos nós temos que cumprir um papel, e é tarefa das pessoas que acreditam em justiça levantar-se em solidariedade à Palestina hoje, e até que a jornada termine.

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