Thomas Sankara não está morto

03/03/2021

Por
Benjamin Talton

Tradução
Caroline Freire

Antes do seu assassinato, em 1987, o revolucionário anticolonialista Thomas Sankara lutou para transformar Burkina Faso em uma nação autodeterminada e verdadeiramente independente. Mas como mostra o recém-lançado filme “Sankara n’est pas mort”, seu legado continua inspirando lutas contra a opressão mesmo com todos os esforços das elites governantes para eliminá-lo da memória popular.

Thomas Sankara, revolucionário socialista e presidente de Burkina Faso, de 1983 a 1987.

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Antigamente, a única linha ferroviária de Burkina Faso partia de Abidjan, Costa do Marfim, na costa do Atlântico, e percorria seiscentos quilômetros, ao norte, até a capital e maior cidade do país, Ouagadougou. Esta ferrovia fora construída durante a administração colonial francesa e sua rota permaneceu inalterada até Thomas Sankara chegar ao poder, em 1983, por meio de um golpe militar.

Em 1985, o governo de Sankara começou a trabalhar na sua extensão, em direção ao norte. A “batalha das ferrovias”, como ficou conhecida, fez parte deste cenário de transformação – trabalhadores de aldeias localizadas às margens da rota planejada se organizaram em mutirões para limpar o leito da estrada e construir cem quilômetros de trilhos, que conectariam Ouagadougou e a cidade de Kaya. Na visão de Sankara, o desenvolvimento do país deveria ser direcionado e realizado pelas próprias pessoas.

A intenção de Sankara era que a linha ferroviária chegasse até a cidade de Tambao, fronteira de Burkina Faso com o Níger, onde ficava a maior reserva de manganês da região, inacessível por estrada e, portanto, inexplorada. Transformar Burkina Faso em uma nação verdadeiramente independente, autodeterminada e com coesão social e política, exigia capital e Sankara contava com a exploração do manganês para atingir tais objetivos. No entanto, o trabalho inspirador realizado pelo povo de Burkina Faso na construção da linha ferroviária foi interrompido em 15 de outubro de 1987, dia em que Sankara foi assassinado e seu governo deposto por meio de um golpe orquestrado por Blaise Compaoré.

O filme “Sankara n’est pas mort” (Sankara não está morto), de 2019, apresentado no Festival de Cinema Africano de Nova York deste ano, mostra a euforia da revolução popular de 2014, que pôs fim ao controle de Blaise Compaoré após 27 anos no poder. Escrito e dirigido por Lucie Viver, o filme é um retrato competente e belissimamente filmado de Burkina Faso e seu povo neste momento incerto, mas de muita esperança. É um misto de poesia e relatos de viagem, traz trechos dos discursos de Sankara e cenas da revolução de 2014, mostrando a vida das pessoas após o levante.

O filme começa com Bikontine, protagonista e narrador, sendo arrastado pelas manifestações contra Compaoré e pelas subsequentes celebrações pelo fim de seu regime no momento em que se preparava para deixar o país, rumo à Europa. Ainda perturbado, mas resignado com o fato de ter de permanecer, pelo menos por ora, Bikontine embarca em uma jornada de descoberta da sua terra natal, Burkina Faso – a terra dos homens íntegros –, seguindo pela ferrovia até o trecho em que sua construção fora interrompida, perto de Kaya, depois do assassinato de Sankara.

Conversas entre Bikontine e as pessoas que ele encontra nas cidades, vilas e aldeias rurais ao longo de sua jornada rumo ao norte são o ponto central da narrativa. Durante esses breves momentos de engajamento do protagonista, personagens aparentemente comuns revelam-se pessoas extraordinárias. E tudo isso a partir das conversas com Bikontine e as histórias que contam sobre suas vidas no campo.

O esforço de reascender a memória e o legado de Sankara, sem que ele seja o personagem central, deixa o filme ainda mais rico. Os discursos e citações do revolucionário servem de pano de fundo, criando a atmosfera do filme. Desta forma, a medida que Bikontine avança em sua jornada, ele descobre, junto com o espectador, o imenso legado de Sankara para o país e seu povo.

Por fim, o fracasso de Compaoré em sua missão para apagar Sankara da memória pública fica evidente. Durante o “período de retificação”, como ele mesmo apelidou, Compaoré reverteu as inovações e iniciativas econômicas de Sankara, desmantelou os esquemas de mobilização popular para a construção de escolas e clínicas de saúde, e destruiu o projeto visionário de desenvolvimento do país com base em seus próprios recursos. Burkina Faso foi reduzida, mais uma vez, à dependência ocidental. E para privar o país de qualquer influência, Compaoré prendeu, torturou e exilou todos os leais seguidores de Sankara.

No entanto, como o título do filme declara e sua história evidencia, Sankara não está morto. Ele ajudou a inspirar o povo para a revolução de 2014 que derrubou o regime de Compaoré e as manifestações de massa de 2015 que garantiram uma transição democrática. Estes são les enfants de Sankara. Eles refletem uma onda de antiautoritarismo no Sul Global. Por meio da arte, da cultura popular e de um interesse renovado pelos discursos e escritos de Sankara, que surgiu tanto como uma lição sobre as incertezas da mudança revolucionária quanto sobre as possibilidades de um desenvolvimento centrado nas pessoas para o presente e direcionado para futuro.


Republicado do Africa Is a Country.

 
 

SOBRE O AUTOR

Benjamin Talton é professor de história na Temple University e autor, mais recentemente, de In This Land of Plenty: Mickey Leland and Africa in American Politics.

 

fonte: https://jacobin.com.br/2021/03/thomas-sankara-nao-esta-morto/

 

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