O estranho novo interesse dos EUA pela América Latina

Visita de representantes do governo Biden à Argentina, Colômbia e Uruguai mostra: Washington perde terreno na região. Teme que, nos próximos 20 anos, ela se torne braço estratégico de Rússia, China e Irã. E o descaso pelo Brasil não é acidental

OUTRASPALAVRAS

Publicado 16/04/2021 às 17:25

Por Eduardo J. Vior, em InfoBaires24 | Tradução: Ricardo Cavalcanti-Schiel

O diretor para o Hemisfério Ocidental, Juan González, e a subsecretaria para o Hemisfério Ocidental, Julie Chung, do Departamento de Estado [equivalente ao Ministério de Relações Exteriores] norte-americano estão visitando, de 11 a 15 de abril, a Colômbia, a Argentina e o Uruguai. A Casa Branca informou que, em Bogotá, debateriam “a recuperação econômica, segurança e desenvolvimento rural [aqui o leitor pode reconhecer o que são as preocupações de Estado norte-americanas com o mundo “rural” latino-americano], a crise migratória venezuelana e a liderança climática regional da Colômbia”. De outra parte, na Argentina (onde chegaram neste dia 13 de abril) e no Uruguai, os enviados “tratarão das prioridades regionais, incluída a crise climática, a pandemia de covid-19 e as ameaças à democracia, aos direitos humanos e à segurança”.

O governo de Biden busca reverter o distanciamento dos Estados Unidos da região, mas, em lugar de ouvir nossas demandas econômicas e sociais, prioriza os objetivos militares, diplomáticos e de segurança, quais sejam, os da competição com a China e com a Rússia.

Juan González nasceu em Cartagena de Índias, na Colômbia, há 45 anos e chegou aos Estados Unidos com 7. Hoje se apresenta como o especialista mais próximo de Biden para a região. Ele ingressou no Departamento de Estado em 2004. Durante o governo Barack Obama passou para o Conselho de Segurança Nacional e, quando terminava sua permanência lá, o então vice-presidente Biden convocou-o a trabalhar com ele sobre o tema da América Latina. A partir de então o assessora sobre o assunto.

No que respeita à Venezuela, González concorda com Biden de que Nicolás Maduro não é mais que um ditador e que Juan Guaidó deve ser respaldado, mas (ao menos de forma declaratória) não acredita em soluções violentas. Conforme suas próprias manifestações, escolheu Buenos Aires como segunda escala da visita à região, porque “os Estados Unidos precisam de um interlocutor confiável” na região.

De outra parte, Julie Chung é diplomata de carreira, atua como subsecretaria de Estado interina para o Hemisfério Ocidental. Serviu antes em diferentes missões na Malásia, Camboja e Colômbia. De família coreana, Chung nasceu na Califórnia e ingressou no serviço diplomático em 1996.

Não é casual que a Casa Branca coloque a Argentina entre suas prioridades para a região. O retorno do peronismo ao poder em 2019, após o triunfo eleitoral de Andrés Manuel López Obrador (ou AMLO) no México um ano antes, abriu a porta para um eventual giro ideológico na região, que continuou com o triunfo do MAS (Movimiento al Socialismo) na Bolívia em 2020 e que pode vislumbrar o eventual retorno de Lula ao governo brasileiro. Nesse contexto, a Casa Branca busca uma nova relação com a Argentina.

Ao mesmo tempo, também não é casual que, no seu recente giro pela região, o ainda chefe do Comando Sul (que tão logo haja a confirmação do Senado norte-americano, será substituído pela tenente-general Laura Richardson), o almirante Craig Faller ― e agora González e Chung ― tenha excluído o Brasil. Ainda que o chanceler Ernesto Araújo tenha sido substituído ― ao que parece, por ordem expressa do secretario de Estado Antony Blinken ― os funcionários de Joe Biden continuam evitando o contato público com Jair Bolsonaro.

A estratégia continental dos Estados Unidos é parte do seu conceito global de Segurança e Defesa e só pode ser compreendida nesse contexto. No último dia 9 de abril, o Conselho Nacional de Inteligência (NIC, por sua sigla em inglês) publicou seu relatório intitulado Global Trends: A More Contested World (“Tendências globais: um mundo mais disputado”). Trata-se do último relatório e prognóstico da situação mundial que a coordenação dos 16 serviços de inteligência do país vem produzindo desde 1997 para o presidente eleito antes de assumir o cargo. Este ano, por conta do caótico período pós-eleitoral, apenas agora, quando o governo já está em exercício, é que foi publicado. Em consequência, o planejamento estratégico parece ter ficado atrasado, o que vinha se evidenciando pelo acúmulo de iniciativas descoordenadas. A função desses relatórios Global Trends é precisamente a de elaborar previsões de quinze anos, para conformar as diferentes políticas setoriais. Para recuperar o tempo perdido, se dispuseram agora a produzir um relatório com prognósticos para os próximos vinte anos [daí seu título: Global Trends 2040].

O relatório inicia com um panorama geral da situação produzida pela pandemia, elabora estimativas sobre os riscos para a ordem mundial e considera um espectro de alternativas que possam se apresentar em 2040. Fiel ao estilo do planejamento norte-americano dos últimos 45 anos, o acúmulo de dados e a segmentação da realidade substituem a análise causal. É notável a omissão de qualquer discussão sobre valores e cosmovisões. Sempre se parte de duas premissas: a) os valores da democracia liberal norte-americana possuem validade universal; e b) os Estados Unidos só podem ser considerados culpados por eventuais desdobramentos negativos se não tiverem sido suficientemente assertivos na sua “responsabilidade pelo bem da humanidade”. Quando a maior potência do mundo se vê regida pelo narcisismo e pela paranoia, sua falta de sentido da realidade não pode produzir outra coisa que não desastres.

O documento está estruturado em torno de cinco temas: 1) os desafios globais (mudança climática, pandemias, crises financeiras e disrupções tecnológicas); 2) a dificuldade para encarar tais problemas por conta da fragmentação do sistema internacional e dos próprios Estados; 3) a geração, por consequência, de uma desproporção entre a dimensão dos desafios e ameaças, por um lado, e a capacidade dos Estados e instituições internacionais para resolvê-los, por outro; 4) o crescimento, em todos os países, da contestação e da resistência à autoridade, dificultando a ação dos governos e organismos internacionais; e 5) a necessidade de um trabalho intenso de adaptação em todas as dimensões.

A partir daí são assinaladas as “forças estruturais” que estariam dando forma aos conflitos internacionais: o crescimento demográfico, a crise ambiental, o aumento das dificuldades econômicas e a aceleração do desenvolvimento tecnológico. A seguir, se busca identificar as “dinâmicas emergentes” ― sociais, estatais e internacionais. Por fim, se esboça o que, no entender desses analistas, seriam os cenários alternativos possíveis para 2040: o “renascimento das democracias”, “um mundo à deriva”, “uma coexistência competitiva entre sistemas”, “um mundo fragmentado” em blocos econômicos e militares ou “uma mobilização global” como reação à tragédia.

Ao se avaliar o relatório, salta à vista a falta de congruência e articulação do raciocínio, a ausência de autocrítica (portanto, a ausência de propostas para a reforma do próprio sistema) e a eventual ponderação positiva de outras iniciativas que não sejam as próprias. Todas as iniciativas alheias, aliás, são qualificadas como errôneas ou mal-intencionadas, e a má intenção ― invoca-se com veemência ― se dirige sempre contra os Estados Unidos. A consequência automática é que toda interpelação crítica é imediatamente percebida como um perigo à segurança nacional da superpotência. A política e a diplomacia se subordinam, então, às demandas de um único objetivo: a supremacia global.

De forma bastante coerente com essa matriz de pensamento, o almirante Craig Faller, em seu relatório de gestão, apresentado no último dia 16 de março ao Senado, sublinhou diversas vezes a necessidade “urgente” de que os Estados Unidos intervenham no continente contra o aproveitamento que Rússia, China e Irã estariam tirando das crises migratória, ambiental, sanitária e econômica, que criam ― assim o afirmou ― o caldo de cultivo para o incremento do narcotráfico, da corrupção e do desgoverno na maioria dos Estados latino-americanos. Por essa razão, aponta tais crises como ameaças estratégicas a serem combatidas, caso se queira impedir que “potências estranhas” aumentem a sua influência sobre a região e ponham em perigo a segurança dos Estados Unidos.

O governo Biden quer recuperar o controle do continente americano, mas carece de uma política coerente. Teve alguns acertos, mas agravou a crise migratória na fronteira com o México, não abre mão de uma solução militar para o conflito venezuelano que a narco-direita colombiana lhe impõe e carece de forças para competir com Rússia e China na “diplomacia das vacinas”. Por fim, mesmo que o desmantelamento nacional do Brasil sirva para as suas corporações financeiras, ele não faz ideia de como gerenciar politicamente o desastre que Washington mesmo produziu. Tensionado entre a falta de conceitos integradores e a tentação da força, os Estados Unidos demonstram, a toda vista, que se encaminham para uma política latino-americana e caribenha errática. Washington é parte de nossos maiores dramas, e não da sua superação.

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