A teoria do véu e a dupla consciência em W. E. B. Du Bois

Por
Silvio Luiz de Almeida

O sociólogo, escritor e editor comunista W. E. B. Du Bois nasceu neste dia em 1868. No livro, que ganha uma nova edição brasileira, ele mostra as ferramentas intelectuais para entender como a sociedade se reorganizou após a escravidão para reconstituir, sob novas bases, a subalternidade do povo negro.

W. E. B. Du Bois nasceu em 23 de fevereiro de 1868. Ilustração de Luciano Feijão.

Prefácio extraído do livro As Almas do Povo Negro, de W.E.B. Du Bois (Veneta 2021)


A importância da obra de W.E.B. Du Bois transcende as fronteiras de seu país de origem, os Estados Unidos da América. Seus livros, seus artigos e suas intervenções políticas constituem um dos mais importantes legados intelectuais do século XX.

Du Bois, nascido em 1868, padece da sina de todo intelectual negro: ser reduzido a um intelectual “negro”. Du Bois era um homem negro que, certamente, falava a partir de sua condição existencial. Mais do que isso: ele foi um militante na luta pelos direitos civis, além de fundador de uma das mais importantes organizações negras da história americana, a National Association for the Advancement of Colored People (NAACP). Seu compromisso com o antirracismo era inegável e a reflexão sobre a condição do negro constitui o núcleo de suas reflexões.

Entretanto, o perigo de denominar Du Bois como um intelectual negro é não captar a amplitude de sua obra que, justamente ao refletir sobre a situação racial nos Estados Unidos pós-abolição, se lança à investigação dos processos mais profundos de constituição da sociedade e da subjetividade humana.

O livro As Almas do Povo Negro, é a demonstração de que Du Bois parte da experiência negra para compreender o mundo em suas tramas mais complexas. O livro é formado por um conjunto de ensaios que retratam e analisam a trajetória, a cultura e a luta dos negros e negras nos Estados Unidos após a abolição e a Guerra Civil (1861-1865). O que Du Bois faz é mostrar como a sociedade estadunidense se reorganizou depois da Guerra Civil para reconstituir, sob novas bases, a subalternidade do povo negro. A violência da escravidão foi substituída pela violência do racismo em uma sociedade industrializada. Com isso, o autor nos ensina que “liberdade” e “cidadania” nunca foram independentes da condição negra; ou seja, o racismo sempre funcionou como um fator limitante de quaisquer perspectivas emancipatórias. Como afirma o próprio autor, trata-se de um livro que pode revelar “o estranho significado de ser preto” no que, quando da publicação do livro, era a “alvorada do século XX”.

Du Bois nos traz nesta obra dois conceitos fundamentais para a compreensão do racismo e da história dos Estados Unidos: véu e dupla consciência. O véu é algo que impede que sejamos vistos como realmente somos, mas também nos impede de ver o mundo como ele realmente é. Nesse sentido, a metáfora de Du Bois diz respeito ao modo como as relações raciais nos Estados Unidos foram constituindo-se.

Nas palavras de Du Bois: “Foi quando me veio a percepção quase imediata de que eu era diferente dos demais; ou semelhante, talvez, em termos de coração e de força vital e de aspirações, mas apartado do mundo deles por um enorme véu”. Negros e brancos vivem simultaneamente no mesmo mundo e em mundos distintos. Negros e brancos são criações desse processo permanente de divisão da vida por um “véu” em que cada lado implica uma distinta forma de existir. A raça é, portanto, uma condição existencial que, para além das características físicas, se define pelo processo de formação de nossas “almas”. O racismo é, com efeito, um processo de formação de almas cindidas e despedaçadas, tanto de negros como de brancos. Com o tratamento da raça como condição existencial, Du Bois inaugurou o que mais tarde seria conhecido como o campo dos estudos sobre a branquitude. O segundo conceito trazido por Du Bois é o de dupla consciência. Segundo Du Bois, ser negro é: 

“uma sensação peculiar, essa consciência dual, essa experiência de sempre enxergar a si mesmo pelos olhos dos outros, de medir a própria alma pela régua de um mundo que se diverte ao encará-lo com desprezo e pena. O indivíduo sente sua dualidade — é um norte-americano e um negro; duas almas, dois pensamentos, duas lutas inconciliáveis; dois ideais em disputa em um corpo escuro, que dispõe apenas de sua força obstinada para não se partir ao meio.”

Ser negro, como eu disse antes, é ser permanentemente cindido. E Du Bois publicou este livro quando os negros dos Estados Unidos estavam sob o domínio das Jim Crow, como ficaram conhecidas as leis segregacionistas que separavam negros e brancos, especialmente no sul dos Estados Unidos, e que permaneceriam em vigor até 1965. Vale ressaltar que a Suprema Corte Americana, apenas sete anos antes da primeira edição de As Almas do Povo Negro (1903), havia julgado o caso Plessy vs Ferguson, em que as leis de segregação racial foram consideradas constitucionais.

Assim se coloca um grande dilema: ser um cidadão dos Estados Unidos e ser negro é algo inconciliável — especialmente, mas não só, no contexto da segregação racial — e é disso que nasce o que Du Bois chama de dupla consciência. Mas aí repousa a genialidade de Du Bois: essa impossibilidade de conciliação entre ser cidadão e ser negro, esse conflito, é algo constitutivo da “história do negro norte-americano”.

Desse modo, a história do negro nos Estados Unidos é a história, nas palavras de Du Bois, “desse desejo de tomar consciência de si mesmo como homem, de fundir esse duplo eu em um único indivíduo, melhor e mais verdadeiro”. A fusão depende, portanto, da superação dessa dupla consciência, que não é somente um processo mental, mas é, sobretudo, um processo político em que a reconciliação consigo mesmo depende da retirada do véu que impede o negro de ver a si mesmo. Ultrapassar os limites entre os mundos impostos pelo racismo depende do ativismo político e da atividade intelectual. Essa “tomada de consciência de si” é o que se chamaria depois de “Consciência Negra”.

Assim, As Almas do Povo Negro é um livro especial porque trata das dimensões subjetivas e objetivas do racismo sem separar ou priorizar qualquer uma das duas dimensões. A busca pela compreensão existencial da situação do negro nas dimensões subjetivas e objetivas fez Du Bois avançar sua reflexão para a filosofia, a história, a sociologia e a psicologia, o que o coloca como um dos mais profundos investigadores da constituição material e espiritual da sociedade contemporânea.

A raça é o resultado das múltiplas formas de dominação, de exercício da violência e da exploração econômica em nível global, que se manifesta de modo diferente em diferentes contextos. Negros e negras do mundo, por mais diferentes que sejam, dividem o mesmo lado do véu. Essa conclusão é que leva Du Bois ao ativismo em prol dos direitos civis, mas também à defesa do socialismo e à construção do pan-africanismo.

A publicação de As Almas do Povo Negro no Brasil nos permite agora pensar questões centrais levantadas por um dos maiores intelectuais do nosso tempo a partir de nossa experiência. A violência que nos caracteriza como país é também uma violência racial. A desigualdade que nos marca enquanto país é uma desigualdade estruturada pelo racismo. O véu que nos divide enquanto sociedade é o da democracia racial. Nossa dupla consciência está em ser negro e ser brasileiro. Todas essas são questões importantes para pensar a luta política, sobretudo a antirracista, dentro das condições específicas de nossa experiência histórica.

 

SOBRE O AUTOR

Silvio Luiz de Almeida é doutor em Direito pela Universidade de São Paulo, presidente do Instituto Luiz Gama e professor da Fundação Getulio Vargas e da Universidade Presbiteriana Mackenzie.

 

fonte: https://jacobin.com.br/2021/02/a-teoria-do-veu-e-a-dupla-consciencia-em-w-e-b-du-bois/

 

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