Chacinas: a rotina do Estado capitalista

Enquanto acreditarmos que poderemos ter outra polícia, continuaremos a contar os mortos por chacinas anualmente. A violência policial nunca diminui, e na verdade escala.

 

Grupos de extermínio – Arquivo

 
 

Friedrich Engels em uma de suas obras primas, “A origem da família, da propriedade privada e do Estado”, nos ensina que o produto direto da sociedade de classes é a formação de um Estado que garanta as classes. Este novo Estado, que surge de uma sociedade primitiva, necessita de um aparato que garanta os “direitos” destes novos proprietários e mantenha, através da repressão, “calados” os novos oprimidos.

É direto e claro que um setor oprimido, diante deste abismo produzido pela sociedade de classes, use da violência para reivindicar algo que também é seu. É ingênuo pensar que deveríamos aceitar que algumas pessoas deveriam viver entre esgotos, ratos, fome e miséria, enquanto outras, oriundas de privilégios de classe que lhes foram dados, desfruta de uma boa educação e condições sociais infinitamente superiores.

É também nesta sociedade de classes que surgem os seus elementos metafísicos como a religião. E neste mesmo terreno, que surge o elemento fundamental e a garantia primordial do funcionamento social da sociedade moderna capitalista: o aparato repressivo policial.

A polícia brasileira é uma das mais violentas do mundo, possuindo no seu currículo repressões e assassinatos contra todos os tipos de setores: de movimentos populares da periferia, trabalhadores da cidade, do campo em um completo currículo fascista. O que vamos trazer neste texto é uma visão, ainda que pequena, dos extermínios que esse setor promove ao longo dos anos.

O Esquadrão da Morte

O Esquadrão da Morte foi uma organização paramilitar surgida no final dos anos 1960, após o golpe militar, cujo objetivo era perseguir e matar pessoas ligadas a movimentos de esquerda, principalmente ao movimento dos trabalhadores. Relatórios, que podem ser incompletos, falam que de 1968 a 1971 o esquadrão da morte pode ter matado mais de 800 pessoas.

Em São Paulo, uma das figuras famosas do esquadrão da morte, foi Sérgio Fernando Paranhos Fleury, vulgo Delegado Fleury, ou apenas Fleury. Foi o principal líder do Esquadrão da Morte, sendo ligado diretamente aos militares e pertencendo ao Departamento de Ordem Política e Social (Dops) de São Paulo. Rose Nogueira, jornalista e ex-militante da Ação Libertadora Nacional, foi uma das torturadas na sala de Fleury. Ela lembra que dentro da sala havia um desenho de caveira e embaixo as letras EM (Esquadrão da Morte). A jornalista sofreu com torturas cruéis durante dias, logo após ter dado a luz a seu único filho. Devido aos brutais ataques ela ficou estéril. Ela lembra: “Me virou de costas, me pegando pela cintura e começaram os beliscões nas nádegas, nas costas, com o vestido levantado . Um outro segurava meus braços, minha cabeça, me dobrando sobre a mesa. Eu chorava, gritava, e eles riam muito, gritavam palavrões. Só pararam quando viram o sangue escorrer nas minhas pernas”, falou ela em entrevista ao jornal GGN.

Em um momento no qual o Esquadrão não estava sendo bem visto internacionalmente, foi feita uma manobra onde Fleury foi condenado à prisão pelo STF, contudo não chegou a cumprir pena, e por parte dos militares ainda foi condecorado pelo Exército Brasileiro com a Medalha do Pacificador e pela Marinha do Brasil com a Medalha Amigo da Marinha.

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Fleury: um capanga dos militares e da burguesia

No final da ditadura como queima de arquivo, os próprios militares executaram Fleury.

Fleury também foi associado a outro grupo no Rio de Janeiro conhecido como: “A Scuderie Detetive Le Cocq”. 

A “Scuderie Le Cocq”, cujo nome homenageava o detetive Milton le Cocq, homem da polícia do Estado do Rio de Janeiro, e integrante da guarda pessoal de Getúlio Vargas. A escuderia transformou-se em associação e chegou a reunir sete mil associados e admiradores. O grupo era liderado pelos chamados “Doze Homens de Ouro”, entre os policiais escolhidos na força de elite da polícia pelo Secretário de Segurança Pública do Rio de Janeiro, Luis França, para “limpar” a cidade.

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Alguns milicianos dos “Doze Homens de Ouro”

Um dos primeiros integrantes selecionados foi Guilherme Godinho Ferreira, o Sivuca, que mais tarde se elegeu deputado estadual com o bordão “bandido bom é bandido morto”. Todos eram agentes policiais especiais e bem treinados. Se orgulhavam dos assassinatos como vemos em um relato em um site estrangeiro ligado à corporação: “Zé Pretinho, por exemplo, foi assassinado na porta de seu barraco, no Morro dos Macacos, em Vila Isabel. Bidá morreu no Morro do Querosene, no Catumbi, e Passo Errado, no Morro do Tuiuti, em São Cristóvão”.

Na verdade, esses grupos de extermínio foram fundamentais para a sustentação do governo através da repressão e morte dos opositores. Assim, a mais violenta e incrível repressão policial e paramilitar foi imposta ao povo e consentida pela pequena-burguesia. A imprensa burguesa e as campanhas publicitárias da época também endossavam e defendiam a repressão.

Paralelo a isso, a grande burguesia nacional também financiava e, em alguns casos até assistia, a tortura e a guerra contra o povo. Associado aos grupos de extermínio, a repressão oficial torturava com a tática de obter informações. Essas confissões forçadas não impediam uma série de castigos físicos, mutilações, fuzilamentos, esquartejamentos e etc. Relatos e documentos atestam que crianças chegaram a ser presas torturadas e abusadas.

Outra característica curiosa dos grupos de extermínio e da Scuderie Le Cocq é que houve sempre as homenagens concedidas por políticos. Os polícias membros e organizadores dos grupos recebiam inúmeras comendas e menções das Assembleias Estaduais e Câmaras Municipais, exatamente como ficou exposto ter sido feito por Flávio Bolsonaro a milicianos do Rio de Janeiro.

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Logo da Scuderia que pertencia ao Esquadrão da Morte

Um ponto aqui é que Carlos Humberto Mannato, um ex-integrante da Le Cocq, foi filiado ao PSDB (1994-2000), e PDT (2001-2013), concorrendo em 2018 ao governo do Espírito Santo pelo PSL. Em 2019 assumiu a Secretaria Especial da Casa Cívil para a Câmara dos Deputados, a convite do outro fascista Bolsonaro, ficando até Junho daquele ano quando pediu sua exoneração. Atualmente é Presidente do Conselho Deliberativo do Sebrae no Espírito Santo.

Há relatos de que o Esquadrão da Morte ainda atue no estado com este nome do Espírito Santo, mais precisamente na região da Grande Vitória, terra de Mannato.

Greve dos  trabalhadores da CSN em 1988

Após uma assembleia realizada no dia 4 de novembro de 1988, os trabalhadores da CSN decidiram entrar em greve. Em 7 de novembro começou a paralisação e, após um confronto com a Polícia Militar, os trabalhadores tomaram o controle da empresa. A diretoria do Sindicato dos Metalúrgicos de Volta Redonda promoveu a ocupação da empresa para paralisar as atividades, com o objetivo de colocar a empresa em xeque e fortalecer a greve. A direção da empresa então solicitou na Justiça a reintegração de posse e a intervenção do Exército, buscando acabar com o movimento dos trabalhadores, a qual foi prontamente atendida pela justiça.

O exército e seus batalhões do centro sul fluminense foram mobilizados em uma típica situação de guerra com blindados, tanques, artilharia, dezenas de soldados e um efetivo truculento de policiais militares que invadiram e fechavam o comércio local. Houve agressão de trabalhadores nas ruas onde o exército e a polícia promoveram um toque de recolher sem prazo de fim: Volta Redonda estava sitiada e a CSN completamente cercada.

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Militares com tanques apontando para os trabalhadores

Os metalúrgicos mantinham-se firmes na greve, e em resposta à opressão militar a cidade sublevou-se através dos movimentos sociais. A palavra de ordem era somente uma: a greve continua!

As tropas militares entraram na empresa com bombas de gás lacrimogêneo, blindados Cascavel e fuzis automáticos. O saldo trágico: centenas de operários feridos e três jovens metalúrgicos brutalmente assassinados, Carlos Augusto Barroso, 19 anos; Valmir Freitas Monteiro, 22 anos; e William Fernandes Leite, 23 anos.

Devido à repressão do Exército e da Polícia, o movimento sindical passou a se referir à greve de 1988 como o Massacre de Volta Redonda.

Aqui é uma amostra que a polícia e o aparato do estado está disposto a combater diretamente a classe operária. Não é uma questão de bandida ou coisa e tal. Trabalhadores reivindicando melhorias salariais foram mortos através de uma mobilização de guerra. 

A Polícia Militar de São Paulo e a Guerra dos Canudos

Por volta de 1893, reuniu-se no arraial de Canudos, um grupo seguidores de Antônio Conselheiro, que era oriundo do Ceará. Os beatos ou conselheiros caminhavam pelo sertão, pregando uma forma de catolicismo popular e eram seguidos por dezenas de fiéis. 

Depois de peregrinar pelos sertões de Pernambuco e Sergipe, Conselheiro andou pelo interior da Bahia e se instalou em Canudos. Neste lugar ergueram a “Cidade Santa de Belo Monte”, que se transformou num refúgio para os miseráveis da região. Canudos além da mitologia religiosa, era na verdade um refúgio para setores explorados do latifúndio da região. Conta-se que em Canudos era uma comunidade onde inexistiam diferenças sociais, os rebanhos e as lavouras pertenciam a todos. Esse modelo sócio econômico sem dúvida atraiu milhares de sertanejos.

Incriminada pelo latifúndio da época, Canudos foi alvo das tropas republicanas. Ao contrário das expectativas do governo, a comunidade conseguiu resistir a quatro investidas militares. Na quinta investida comparecem aparatos policiais de vários estados, levando com eles metralhadoras e canhões, fazendo um grande massacre em Canudos.

Um dos pontos atuais sobre o tema é que a Polícia do Estado de São Paulo, carrega Canudos como glória no seu brasão, assim como a Revolta da Chibata, Greve de 1917 e a ditadura militar de 1964, onde chama de revolução.

Segue a definição dos Brasão segundo o site da Polícia Militar do Estados de São Paulo:

Brasão de Armas da Polícia Militar do Estado de São Paulo é um Escudo Português, perfilado em ouro, tendo uma bordadura vermelha carregada de 18 (dezoito) estrelas de 5 (cinco) pontas em prata, representando marcos históricos da Instituição; no Centro, em listras verticais e horizontais, as cores representativas da Bandeira Paulista, também perfiladas em ouro; como timbre, um leão rampante em ouro, apoiado sobre um virol em vermelho e prata, empunhando um gládio, com punho em ouro e lâmina em prata; à direita do brasão um ramo de carvalho e à esquerda um ramo de louro, cruzados em sua base; como tenentes, à direita, a figura de um Bandeirante com bacamarte e espada, e à esquerda um Soldado da época da criação da Milícia, empunhando um fuzil com baioneta; ambos em posição de sentido; num listel em azul, a legenda em prata “LEALDADE E CONSTÂNCIA”.

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O site da PM não coloca mais os detalhes das estrelas (Marcos Históricos), porém em sites antigos podemos encontrar a descrição das quatro que citamos acima:

8ª ESTRELA – 1897, Campanha de Canudos;

9ª ESTRELA – 1910, Revolta do Marinheiro João Cândido;

10ª ESTRELA – 1917, Greve Operária;

18ª ESTRELA – 1964, Revolução de Março.

Não bastasse o brasão, no hino da Polícia do Estado de São Paulo, canta-se a Glória em Canudos:

“…Glória em Canudos, e, de armas e almas…”

Outubro de  1992 – Carandiru (SP)

Em 2 de outubro de 1992, durante uma partida de futebol, teve início uma briga de presos no Pavilhão 9 do presídio do Carandiru. De uma briga por futebol, acionou-se a intervenção da Polícia Militar, então liderada pelo coronel Ubiratan Guimarães, tendo como justificativa acalmar a rebelião no local. A intervenção da polícia foi autorizada pelo então secretário de Segurança Pública de São Paulo, Pedro Franco de Campos. 

Durante a invasão a polícia militar exterminou 111 detentos a sangue frio e sem alguma defesa da outra parte. O número de feridos ficou sem contabilização. Um extermínio da população pobre e carcerária, sem precedentes na história do Brasil, mostrando que a execução sumária e a pena de morte é uma constante no país mesmo após a ditadura.

Como um setor fascista da classe média, é apoiador incondicional do extermínio da classe pobre, o coronel Ubiratan, além de ter sido inocentado, entrou na política onde tomou posse como suplente de deputado estadual pelo PSD por duas vezes entre janeiro de 1997 a abril de 1998 e de janeiro a março de 1999. Posteriormente foi eleito deputado estadual pelo PTB, com o número 14111, fazendo alusão aos 111 mortos no carandiru. Outro fato político que mostra a podridão de figuras atuais, é que Pedro Campos deixaria o governo menos de um mês depois do massacre, assumindo a Secretaria de Segurança de São Paulo o ex-presidente golpista Michel Temer, que ao tomar posse, anunciou que como reação ao massacre recomendaria repouso e meditação para os policiais envolvidos.

Julho de 1993 – Igreja da Candelária

Na noite de 23 de julho de 1993, um Táxi e um Chevette com placas cobertas pararam em frente à Igreja da Candelária, onde na sequência contra dezenas de moradores de rua, na maioria adolescentes, que estavam dormindo nas proximidades da Igreja. Foram assassinados 8 adolescentes e jovens entre 11 e 19 anos e diversos ficaram feridos pelos tiros.

Como era de se esperar, as investigações concluíram que os autores eram milicianos ligados à polícia. Segundo estudos realizados por associações ligadas à organização Anistia Internacional, quarenta e quatro das setenta pessoas que dormiam nas ruas daquela região perderam a vida de forma violenta. Todas as vítimas eram pobres e negras.

Mais um evento que mostra a perseguição policial, é quando a investigação do ato levou até Wagner dos Santos, um dos adolescentes que sobreviveu, apesar de ter sido atingido por quatro tiros. Wagner Santos, sofreu um segundo atentado, em 12 de setembro de 1994 na Estação Central do Brasil, provavelmente como queima de arquivo e a partir de então. 

“Wagner é o sobrevivente mais famoso. Foram tantos tiros (um está alojado na coluna) que ele teve envenenamento por chumbo (saturnismo), sequelas físicas e psicológicas. Teve perda parcial de visão, audição e paralisia no rosto. Pagou um preço muito alto”, falou em uma entrevista o assessor de direitos humanos da Anistia Internacional Maurício Santoro. 

Sem qualquer perspectiva o governo brasileiro concedeu um auxílio de dois salários mínimos por mês, o que é nada diante da total perde do jovem. A irmão Patricia coloca: “Ele guarda muita mágoa pela falta de respeito”.

Uma outra vítima da chacina da Candelária, Sandro do Nascimento, foi executado pela polícia em junho de 2000, no caso do ônibus 174.

Agosto de 1993 – Vigário Geral

1 mês após a chacina da Candelária, o Rio de Janeiro teria outro massacre, desta na favela de Vigário Geral, Zona Norte da cidade.

Na madrugada do dia 29 de agosto de 1993, a favela foi invadida por um grupo de extermínio. Ao estilo esquadrão da morte, com cerca de 36 homens encapuzados e armados, onde estes arrombaram casas e executaram 21 moradores. Como manobra de imprensa da burgeusia, o caso chegou a ser julgado na Organização dos Estados Americanos (OEA) como crime contra os direitos humanos. No final, apenas 1 policial militar, Sirlei Alves Teixeira, chegou a ser preso e nada mais mudou na polícia de extermínio carioca.

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Corpos jogados na manhã da chacina

Um fato que mostra bem a demagogia da imprensa capitalista em relação ao crime organizado, é que se noticiou que no caso de Vigário Geral, teria sido uma represália dos policiais contra traficantes da região, porém nenhuma das vítimas possuísse envolvimento com o tráfico de drogas.

Grande parte das famílias das vítimas, nem sequer receberam alguma indenização do Estado.

Agosto de 1995 – Corumbiara (RO)

Em Corumbiara, Rondônia, a fazenda improdutiva Santa Elina, com aproximadamente 18 mil hectares, foi ocupada no dia 15 de julho de 1995. Dois dias depois, o “proprietário” entrou com um pedido de reintegração de posse, plenamente acatado pela Justiça. Com um contingente altamente armado por policiais militares da região, houve uma primeira tentativa de cumprimento do mandado judicial, contudo pela forte organização camponesa, os militares não obtiveram resultado. 

Contudo, a polícia em um ato corriqueiro fascista, decidiu realizar arbitrariamente a invasão madrugada de 9 de agosto de 1995, por volta das três horas, com pistoleiros armados, recrutados nas fazendas da região, e soldados da Polícia Militar com os rostos cobertos, iniciaram os ataques ao acampamento. 

O número oficial de mortos no massacre é de 16 pessoas e há sete desaparecidos. Contudo para os camponeses, o número de mortos pode ter passado de 100, pois, segundo eles, muitos mais teriam sido mortos por policiais e jagunços, e enterrados sumariamente no local.

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A polícia atuando na cidade e no campo

 

Abril de 1996  – Eldorado dos Carajás 

A fazenda Macaxeira era uma grande fazenda improdutiva e ociosa na cidade de Eldorado do Carajás, no sul do Pará,  O Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), se organizou e decidiu levantar um acampamento próximo à fazenda em setembro de 1995, tendo no dia 5 de novembro ocupado a fazenda. 

Em 10 de abril de 1996, cerca de 2500 sem-terra que estavam acampados na região, junto de outros manifestantes do MST, começaram uma marcha de quase 900 km até a capital Belém em protesto contra a demora da desapropriação de terras, principalmente dos 40 mil hectares da Fazenda Macaxeira. No trajeto os manifestantes ocupam e bloqueiam a rodovia PA-150. É aí que  a polícia militar teria sido chamada para liberar a rodovia. 

Quando a polícia chegou ao local a brutalidade foi enorme, resultando em 21 mortos, com características de execução sumária, segundo laudos oficiais posteriores. Outras 79 pessoas ficaram feridas, duas das quais acabaram morrendo no hospital. O cinegrafista Raimundo Osvaldo Araújo, da TV Liberal, conseguiu capturar algumas imagens do massacre onde mostram os trabalhadores rurais reagindo com foices e facões enquanto eram alvejados pelos policiais com metralhadoras. No link abaixo você encontra um mini documentário, com algumas imagens da golpista Rede Globo, contudo são um relato do massacre da polícia na época, com depoimentos de sobreviventes e imagens dos corpos no IML: https://www.youtube.com/watch?v=n59th4opL_E

 

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A polícia no campo mata com ajuda de pistoleiros contratados pelo latinfúndio

31 de março de 2005 – Chacina da Baixada (RJ)

Na noite de 31 de março de 2005, policiais militares assassinaram a tiros 29 pessoas e feriram outras duas em diferentes pontos dos municípios de Nova Iguaçu e Queimados, na baixada fluminense. Tendo esta sido a maior chacina já registrada na história do estado do Rio de Janeiro, juntamente com Jacarezinho neste mẽs. dico de 2005.

Os relatos são que 5 policiais militares à paisana se reuniram em um bar, no centro de Nova Iguaçu, na noite de 31 de março de 2005, onde demonstravam insatisfação com o endurecimento das normas impostas após uma troca de comando em uma série de batalhões da PM na região. Provavelmente esta troca afetaria negócios da milícia na região. Os policiais, então, planejaram uma vingança contra o comando da corporação através de uma série de assassinatos.

Quatro dos cinco PMs deixaram o bar em um Gol e passaram atirando a esmo pelas ruas de Nova Iguaçu, tentando fazer o maior número de vítimas possível. Executaram 17 pessoas, e depois, seguiram pelas ruas de Queimados, município vizinho, seguindo a mesma estratégia de assassinar quem estava pelo caminho e fizeram outras 12 vítimas, totalizando 29 pessoas mortas nas duas cidades da Baixada Fluminense.

Não bastasse o crime bárbaro, mostra o quão psicopata é um elemento da polícia.

Agosto de 2015 – Chacina Osasco (SP)

Na noite de 13 de agosto de 2015, ocorreu a maior chacina do estado de São Paulo que se tem notícia legal – a ditadura produziu muita coisa nunca documentada. Um grupo de oficiais, supostamente agindo em retaliação à morte de colegas, se dirigiu aos municípios de Osasco e de Barueri e começaram o massacre. Foram 15 execuções em Osasco e 3 em Barueri. Uma menina de 15 anos, que foi atingida, morreu em 27 de agosto, após ficar internada no hospital. 

Importante falar que 5 dias antes, havia ocorrido o que ficou conhecido depois como uma “pré-chacina”, isto é, no dia 8 de agosto, o mesmo grupo de agentes de segurança teria assassinado mais 6 pessoas, contabilizando 24 assassinatos.

Em um dos ataques, falam que os policiais enfileiram as vítimas e depois perguntavam se as pessoas tinham antecedentes criminais quando depois depois, atiravam. Execução à sangue frio e sumária da polícia como prática habitual.

Maio de 2021 – Chacina do Jacarezinho

A Polícia Civil, ao contrário da polícia militar, atua em casos de investigação e supostamente deveria possuir um planejamento da operação, por muitas vezes é dita como o lado “bom” da polícia. Não é o que vemos na prática nem o que a maior chacina do Rio de Janeiro, juntamente com a chacina da Baixada, vai nos mostrar. A chacina do Jacarezinho mostrou execuções sumárias típicas de um governo fascista.

A operação que tinha como objetivo a prisão de 21 investigados, porém resultou em 3 pessoas investigadas mortas, outros 3 pessoas investigadas detidas, outras 13 pessoas que não tinham ficha criminal e sequer eram investigados pela operação, moradores da comunidade, além de outras 11 pessoas que ainda não foram identificadas. Sendo assim, dos alvos da operação, apenas seis dos 21 foram detidos. Mesmo as pessoas que não estavam sendo investigadas pela operação foram classificadas não somente como suspeitas, mas “criminosas, homicidas e traficantes” pelo delegado fascista Felipe Curi, que não apresentou nenhuma evidência.

Diante de todos os fatos mostrados acima, fomos capazes de relatar apenas uma pequena parte das chacinas no Brasil. Poderíamos ter falado da Cidade de Deus, Complexo de Alemão e das execuções diárias no país onde a polícia mais mata no mundo. Relatamos o esquadrão da morte, contudo esses esquadrões ainda estão presentes nos dias de hoje, talvez até mais organizados e descentralizados. Nos chegam muito poucos relatos da violência diárianas favelas, e só um grande extermínio é que faz manchete. A imprensa encobre e é uma apoiadora abertra dos assassintaos da polícia, pois afinal das contas é a base de confiança para a proteção do seu patrimônio e manutenção do sistema de opressão. Também 90% dos policiais que participaram das chacinas não sofreram nenhuma punição grave. A maioria foi afastado apenas afastado da corporação e crimes com mais de 25 anos ainda continuam sem resolução, como o próprio Eldorado dos Carajás.

Com a crise do capitalismo, mais ainda o aparato repressivo é presente e violento, visto que este por sua natureza é um apoiador orgânico da extrema-direita fascista.

Nenhuma reformulação desse órgão de extermínio é possível. As polícias são um produto do aparato estatal inerente à luta de classes. Só o fim, com a criação de milícias populares controladas pelos trabalhadores, podem se revelar uma alternativa a esse aparto fascista imposto sobre o trabalhador.

Palavras de ordem pelo fim da polícia, organização dos trabalhadores em milícias populares são a pauta imediata da popualação. Caso contrário viveremos sobre a égide de morte e chacinas todos anos, pois como vimos são processos que já duram muitos anos e fazem parte da estrutura econômica do estado burguês. O capitalismo necessita da polícia para sobreviver, tanto quanto o ser humano do oxigênio. Portanto, só uma sociedade socialista e sem classes pode trazer a igualdade tanto econômica quanto social, e aí, o ser humano conhecerá o verdadeiro significado da palavra liberdade.

fonte: https://www.causaoperaria.org.br/chacinas-a-rotina-do-estado-capitalista/


“Mataram uma trabalhadora, uma menina doce”: grávida morre após operação da PM no Rio

“Mataram uma trabalhadora, uma menina doce e que estava realizada por ser mãe”, diz a amiga de Kathlen de Oliveira Romeu, assassinada hoje no Rio de Janeiro, no complexo do Lins durante operação ilegal da Polícia Militar. Kathlen, jovem trabalhadora negra, estava grávida de 14 semanas de seu primeiro filho e é mais uma vítima da violência policial que vem aterrorizando comunidades.

Esquerda Diário

terça-feira 8 de junho| Edição do dia

 

A operação ilegal da polícia militar carioca se deu no Complexo do Lins, na Zona Norte da capital fluminense. Após troca de tiros entre a PM e crime organizado, Kathlen foi alvejada e levada ao hospital Municipal Salgado Filho, no Méier, mas não resistiu e faleceu.

Ao UOL, uma amiga de Kathlen disse: "Uma amiga de infância, que sempre batalhou desde nova, que era orgulho dos pais e estava esperando uma criança. Ninguém aguenta mais essa matança, temos que acabar com essa palhaçada. Mataram uma trabalhadora, uma menina doce e que estava realizada por ser mãe”.

Segundo a secretaria municipal de saúde, “a gestante faleceu logo após chegar ao Hospital Salgado Filho”. A morte de Kathlen se soma às milhares de pessoas que tiveram suas vidas ceifadas pela polícia carioca nesse ano, como foi o caso da chacina do Jacarezinho onde dezenas de pessoas foram mortas em mais uma operação ilegal (as operações em comunidades foram proibidas durante a pandemia pelo STF).

- Leia mais: “O Estado e o governo são responsáveis", diz Cacau sobre massacre em Jacarezinho

Kethlen era vendedora de uma loja de roupas e era também design de interiores. Estava realizada com a gestação de seu primeiro filho, como mostra publicação recente nas redes sociais: “Hoje estou escrevendo esse texto me sentindo muito feliz e preenchida. Obrigada, senhor, por abençoar meu ventre e me permitir gerar o amor da minha vida. Neném, já me sinto pronta pra te receber, te amar e cuidar! Deus nos abençoe”.

Notícias como essas geram ódio e revolta diante de tamanha barbaridade. Uma jovem com uma vida inteira pela frente, realizada com sua gestação, tem sua vida retirada pela bala de uma operação ilegal da PM, a mesma PM que sucessivamente sai impune de situações como essas. Via de regra, as vítimas possuem cor e classe social muito definidas pela polícia racista.

A população logo saiu às ruas protestar contra a operação e a violência policial. Durante a tarde e início da noite, manifestantes bloquearam a Estrada Grajaú-Jacarepaguá, que liga a Zona Oeste com a Zona Norte da capital.

fonte: http://www.esquerdadiario.com.br/Mataram-uma-trabalhadora-uma-menina-doce-gravida-morre-apos-operacao-da-PM-no-Rio


POLÍCIA ASSASSINA

Moradores contestam versão da PM e afirmam que a polícia iniciou tiroteio e matou Kathlen

Testemunhas afirmam que os policiais estavam escondidos em uma casa e começaram a atirar contra um ponto de venda de drogas, atingindo a jovem.

Esquerda Diário

quarta-feira 9 de junho| Edição do dia

Imagem: Reprodução/Redes Sociais

O caso está sendo investigado pela Divisão de Homicídios da Capital, que ouviu cinco policiais militares que participaram da ação. Em nota, a Polícia Militar informou que não havia operação no momento e que os tiros começaram após bandidos atirarem contra agentes da UPP do Lins.

Mas segundo os moradores, os policiais estavam escondidos em uma casa para surpreender traficantes no chamado Beco da 14. A jovem foi atingida exatamente no momento em que os policiais saíram do imóvel disparando em direção a um ponto de venda de drogas.

A mãe da Kathlen afirmou na manhã desta quarta-feira (9), no Instituto Médico-Legal (IML), que o disparo que matou a filha foi feito por um policial militar, segundo relatos de moradores da comunidade.

"Se a minha filha fosse morta por bandido eu não falaria nada com vocês porque eu sei que eu moro em um lugar que eu não poderia falar. Então ficaria na minha. Mas não foi. Foi a polícia que matou a minha filha. Foi a PM que tirou a minha vida, o meu sonho", disse Jaqueline de Oliveira Lopes.

fonte: http://www.esquerdadiario.com.br/Moradores-contestam-versao-da-PM-e-afirmam-que-a-policia-iniciou-tiroteio-e-matou-Kathlen

 


Em meio às grandes revoltas contra o terror policial, o debate sobre como se livrar da repressão estatal e conseguir uma verdadeira abolição dessas práticas é central. É necessário entender o que realmente é a violência policial e sua relação com o capitalismo.

Após o terrível assassinato de George Floyd pela polícia de Minneapolis, devido a uma nota falsa de US$ 20, uma revolta nacional sem precedentes irrompeu nos Estados Unidos. Esses levantes ocorreram com ferozes confrontos entre os manifestantes e a polícia e colocaram na ordem do dia o debate sobre o que fazer com a polícia como instituição.

Entre os diferentes slogans, circulam reivindicações de que a polícia seja desfinanciada e removida de certos espaços, como escolas, ou mesmo completamente abolida. Esta última demanda é claramente a de maior alcance, como realmente acabar com a polícia como instituição, uma consigna que vem ganhando força, especialmente desde que o Conselho da Cidade de Minneapolis se viu pressionado a aprovar o desmantelamento da polícia da cidade.

O que eles propuseram em Minneapolis? Como explicado nesta nota, os detalhes desse "desmantelamento" até agora são escassos, mas o que foi anunciado não parece muito com uma abolição real. De fato, a presidente do Conselho, Lisa Bender, disse explicitamente que "a ideia de não ter um departamento de polícia não é uma coisa de curto prazo".

Fica claro que o Conselho da Cidade de Minneapolis teve que ceder à pressão dos ativistas, demonstrando que a única maneira de conseguir uma mudança significativa é através da mobilização em massa e da confiança nos trabalhadores. No entanto, embora algumas reformas menores possam se materializar, não há um "compromisso" real possível no que diz respeito à violência policial.

Todos os apelos ao desfinanciamento da polícia tentam abordar o fato de que os orçamentos que recebem são obscenamente inflados, enquanto outros aspectos como a educação precisam lutar por recursos. Em muitos casos, departamentos de polícia, cadeias e prisões podem levar até 60% do orçamento anual de uma cidade. No entanto, devemos nos perguntar: por que os orçamentos policiais são tão grandes? É porque as cidades têm más prioridades e investem na polícia em vez de serviços sociais?

Os orçamentos gigantescos da polícia não são acidentais: eles são centrais no sistema capitalista americano fundado sobre a escravidão. Eles são essenciais para manter uma sociedade onde Jeff Bezos está prestes a ser um trilionário, enquanto os trabalhadores da Amazon, muitos deles negros e latinos, vivem na pobreza. A polícia é um componente intrínseco do sistema capitalista; é uma das forças repressivas que mantêm essa ordem e as grandes desigualdades que inevitavelmente surgem. Portanto, se levamos a sério a abolição da polícia para salvar as vidas de negros, latinos e da classe trabalhadora, precisamos deixar claro que nossa luta é contra o sistema capitalista e o Estado que impõe seu governo. Não pode haver abolição da polícia no capitalismo.

Uma lição de história

A polícia como instituição sempre foi intrinsecamente racista e sexista. No norte dos EUA, antes da criação de forças policiais formais, havia vigilância noturna. Esses vigias noturnos contrataram voluntários por um dia para monitorar as comunidades quanto a casos de prostituição e jogos de azar. Os vigias noturnos eram muito odiados pela população e desprezados por tomar medidas violentas contra as atividades de lazer dos trabalhadores e das mulheres mais vulneráveis.

O primeiro departamento formal de polícia teve origem em Boston, em 1838. Como cidade portuária, Boston era um importante centro de comércio, e desenvolveu a força policial em tempo integral para proteger os envios da burguesia acomodada. Para reduzir os custos da contratação de pessoas para salvaguardar suas propriedades, estes ricos proprietários convenceram o público que era necessária a polícia para o bem comum.

No sul, antes que a polícia se formalizasse em departamentos, havia patrulhas de escravos. Seu único objetivo era reprimir os negros. Eles o fizeram perseguindo, capturando e reescravizando os negros que haviam escapado, aterrorizando os escravos para evitar revoltas e submetendo-os a punição extrajudicial por violar as regras das plantações. Portanto, não surpreende que muitos membros ou admiradores da KKK (Ku-Klux-Klan) hoje sejam policiais. De fato, historicamente, houve uma interseção significativa entre o KKK e a polícia, e as duas organizações trabalharam lado a lado no fortalecimento da supremacia branca.

Após a Guerra Civil, essas patrulhas de escravos se tornaram departamentos de polícia do sul. Eles aplicaram os Códigos Negros por meio de prisão ou multas por desemprego, falta de moradia e casamento inter-racial. Eles colocam homens e mulheres libertas em dívidas impagáveis ou campos de trabalho forçado, semelhantes à escravidão. Da mesma forma hoje, os negros são desproporcionalmente presos, enfrentam prisões inacessíveis e são super-explorados como trabalho prisional.

O capitalismo precisa de policiais

A polícia existe porque o capitalismo precisa dela. Assim como os proprietários de escravos do sul usavam patrulhas de escravos para manter sua “propriedade privada”, a burguesia do norte precisava da polícia para reprimir os grevistas e enviá-los de volta ao trabalho, para reprimir qualquer desafio à ordem capitalista e defender a propriedade privada dos meios de produção. À medida que a industrialização aumentou o lucro capitalista, a polícia também se tornou necessária para reprimir a classe trabalhadora imigrante e nativa.

No século XX, aprofundaram-se uma série de problemas sociais em que os trabalhadores se organizaram para obter maiores direitos trabalhistas, mais controle do local de trabalho e melhores salários. Em resposta, quase todas as cidades desenvolveram um departamento de polícia, e a burguesia começou a jogar seus cães repressivos na classe trabalhadora. As tentativas de sindicalização foram algumas vezes derrubadas pela polícia.

Eles propagaram ideias sobre "revoltosos" que incitavam greves no local de trabalho. Por exemplo, durante a greve de 1934 nas docas de São Francisco, a polícia disparou suas espingardas contra multidões de apoiadores e grevistas e entrou no sindicato para terminar seu ataque. A polícia matou duas pessoas e ninguém foi preso por esses crimes. Ações brutais semelhantes ocorreram em todo o país ao longo do século XX.

O papel atual das forças repressivas não é diferente. Em todo o mundo, eles aterrorizam os bairros da classe trabalhadora da mesma maneira. A função ou prática da polícia nunca foi a proteção ou segurança dos indivíduos. Como sempre se destinava a preservar a propriedade privada capitalista, é por isso que a solução para o terror policial não é uma melhor supervisão ou maior responsabilização. Em vez disso, a solução é a abolição do sistema capitalista racista, no qual homens brancos ricos, muitos dos quais herdaram suas propriedades diretamente do tráfico de escravos, procuram manter as pessoas em condições de fome, moradia precária, fadiga e alienação. E quanto mais severa a opressão, mais brutal será a violência utilizada para manter a classe trabalhadora "em seu lugar".

Câmeras e novo treinamento

Após a primeira onda do movimento Black Lives Matter e até hoje, houve pedidos de câmeras corporais para serem usadas pela polícia e melhor treinamento para os policiais. O argumento para essas reformas é que elas proporcionariam maior transparência e responsabilidade aos oficiais.

O problema é que medidas como essas já foram instituídas em muitos estados dos EUA, mas pouco ou nada fizeram para conter a brutalidade policial. Por exemplo, Eric Garner foi sufocado até a morte em 2014 com um estrangulador ilegal da polícia de Nova York, em plena luz do dia, na frente de uma multidão, enquanto tudo foi filmado. Tamir Rice foi morto em um parque público que tinha câmeras. Philando Castile teve seu assassinato capturado por câmeras policiais e uma gravação de sua namorada. Derek Chauvin olhou e sorriu para as pessoas que o gravaram matando George Floyd. O sistema de (in)justiça é tal que mesmo os assassinatos registrados de negros não significam que policiais assassinos serão julgados e presos.

Além disso, a polícia costuma desligar as câmeras do corpo ao cometer atos hediondos de violência. Recentemente, um dono de uma loja de churrasco no Kentucky foi baleado e morto por um policial que tinha desligado sua câmera.

O número de pessoas baleadas e mortas pela polícia permaneceu quase consistente desde 2015, mesmo após um maior uso de câmeras. Não precisamos de mais imagens de negros sendo brutalizados e mortos pela polícia. Precisamos que esse aparato racista repressivo desapareça.

O problema do policiamento comunitário

Uma das ideias reformistas frequentemente propostas pela mídia e pelos intelectuais burgueses é a polícia comunitária. A proposta seria que os policiais fossem designados para um bairro em particular, de preferência onde moram, e apenas monitorem essa área. Os oficiais teriam, supostamente, relações mais estreitas com a comunidade. De acordo com esse argumento, esse movimento diminuiria os casos de crime, brutalidade e repressão.

Esse ideal não reconhece o papel da polícia como instituição encarregada de fazer cumprir o status quo. O programa de Serviços Policiais Orientados à Comunidade (ou COPS, em inglês), estabelecido pela lei criminal de 1994, investiu bilhões na melhoria da prática de policiamento comunitário para promover o relacionamento entre a polícia e as pessoas. O programa, no entanto, foi um pesadelo absoluto para a classe trabalhadora negra. Ele não apenas fez quase nada para reduzir o "crime", mas também contribuiu para o encarceramento em massa, jogando inúmeros jovens negros na cadeia e deixando-os em circunstâncias de maior privação de emprego e insegurança habitacional.

O fato é que, desde que nada seja feito para lidar com as condições estruturais subjacentes às comunidades negras e latinas – segregação habitacional, insegurança econômica, desemprego e escassez de recursos – o policiamento só pode levar à criminalização e brutalidade, independentemente de ser baseada na comunidade ou não.

Além disso, o policiamento comunitário não altera o fato de que os orçamentos policiais estão esgotando os recursos das comunidades. Durante o auge da pandemia de Covid-19, as cidades lutavam para obter suprimentos essenciais, como respiradores. Quando os fabricantes aumentaram seus preços, a cidade de Nova York ainda tinha US$ 5,6 bilhões destinados à polícia e US$ 8 bilhões para a construção de novas cadeias. Os policiais receberam um orçamento enorme para seus equipamentos antimotim, gás lacrimogêneo e armas militares, que foram usadas para reprimir os manifestantes. Enquanto isso, as enfermeiras foram forçadas a reutilizar as máscaras e usar sacos de lixo em vez de equipamento de proteção pessoal adequado.

O policiamento comunitário não significa que essa força não sirva mais ao sistema capitalista racista. Um policial que conhece uma comunidade, suas famílias e sua cultura continuará brutalizando essa comunidade, porque esse é seu trabalho e função.

Desfinanciar a polícia?

Outra proposta que está circulando fortemente é a ideia de desfinanciar a polícia como solução. É verdade que os orçamentos das forças aumentaram nas últimas décadas, especialmente após a aprovação da lei criminal de 1994, enquanto os serviços de saúde e a educação foram subfinanciados; no entanto, os esforços atuais para reverter essa tendência fariam apenas uma pequena diferença. Em Nova York, o prefeito De Blasio prometeu cortar o orçamento do Departamento de Polícia de Nova York e realocar esses fundos para serviços para os jovens. Em Los Angeles, o prefeito Eric Garcetti disse que reduzirá o orçamento da polícia de US$ 1,8 bilhão para US$ 150 milhões para realocar para comunidades carentes. Essas promessas nada mais são do que concessões menores que não mudarão nada substancial. O que mudará um pouco é o desfinanciamento total da polícia com um orçamento zero e, finalmente, sua abolição permanente.

Deve-se notar que organizações anti-policiais como o Partido dos Panteras Negras surgiram na década de 1960, quando os orçamentos policiais eram muito menores. Essas organizações identificaram corretamente a polícia como uma força repressiva nas comunidades negras da classe trabalhadora. Como disse um dos membros fundadores do Partido dos Panteras Negras, Huey P. Newton: "A polícia em nossos bairros ocupa nossa comunidade como uma tropa estrangeira ocupa um território e não está aqui para promover nosso bem-estar, eles estão aqui para nos conter. Para nos brutalizar e nos assassinar porque eles têm ordens para fazê-lo. "

O aumento dos orçamentos repressivos e sua maior militarização foram uma resposta às crescentes tensões sociais. De fato, as primeiras unidades da SWAT foram desenvolvidas na época dos distúrbios de Watts e da ascensão do Partido dos Panteras Negras.

Desfinanciar parcialmente a polícia não é uma solução. Se usarmos o impulso dos protestos de hoje simplesmente para cortar orçamentos, como podemos impedir que os governos da cidade, estado e federal aumentem amanhã? Mais importante, o que o desfinanciamento parcial fará para acabar com a violência sistêmica contra negros e a classe trabalhadora?

Nosso objetivo não deve ser diminuir o número de negros mortos e maltratados pela polícia. Nosso objetivo não é um pouco menos de opressão. Nosso objetivo deve ser proteger a vida dos negros e erradicar todas as forças que os ameaçam. Aspirar, a menos que isso como objetivo final só nos trará um futuro de mais tristeza e raiva quando a próxima pessoa negra for morta pela violência do Estado.

Abolir a polícia, acabar com o capitalismo

As forças de segurança não podem ser reformadas para ficar do lado da classe trabalhadora e oprimida. Portanto, a única solução viável para contra o terror policial é a abolição completa. Mas, para que haja a abolição da polícia, também deve haver a abolição das prisões, militares, Estado burguês e do capitalismo de conjunto, porque essas forças estão todas interligadas.

Como a polícia existe para proteger a propriedade privada e reprimir a classe trabalhadora, é necessário haver uma força revolucionária composta pela classe trabalhadora que se opõe ao capitalismo e a seus violentos cães de guarda. Na luta atual, embora espontânea e dispersa, há uma enorme revolta mundial contra a polícia que está forçando grandes concessões do Estado. Com essa solidariedade sem precedentes, existe o potencial de organizar essa força para que se oponha diretamente à polícia, a outros agentes estatais e ao próprio capitalismo.

É preciso haver um partido político independente da classe trabalhadora que lute pelo socialismo. Somente esse partido pode organizar uma sociedade na qual os recursos sejam distribuídos de acordo com as necessidades e sem fins lucrativos, e na qual as prisões, a polícia e os militares possam ser eliminados permanentemente.

A repressão é um componente essencial na manutenção de um sistema de exploração. Portanto, a polícia sempre existirá dentro de um sistema capitalista. Se quisermos destruir as forças de repressão que matam crianças, prendem pessoas nas celas, espalham miséria e sufocam os esforços para melhorar as condições materiais da sociedade como um todo, nossa luta precisa ser direcionada ao sistema que se baseia nessa repressão e a mantém.

 

fonte: https://www.esquerdadiario.com.br/A-luta-para-acabar-com-a-policia-e-a-luta-para-acabar-com-o-capitalismo

 

 

 

 

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