Ciência tem de combater o ‘terraplanismo econômico’, diz presidente da SBPC

Em lançamento de manifesto pela educação, ciência, tecnologia e inovação, Ildeu Moreira sintetizou o conteúdo da carta assinada por 11 ex-ministros da área.

A reportagem é de Cida de Oliveira, publicada por Rede Brasil Atual – RBA, 02-03-2021.

desmonte do sistema de ciência e tecnologia no país, construído com muita dificuldade ao longo de mais de 70 anos, tem um aspecto subjacente: a visão econômica extremada, o neoliberalismo estreito e o “terraplanismo econômico”. Embora não seja criação do atual governo, é sob Jair Bolsonaro que essa marca ideológica tem sido profundamente acentuada.

“Isso interessa apenas a pequenos grupos do país e ao capital internacional. Temos de fazer um esforço muito grande. Está aí a EC (Emenda Constitucional) 95, que é exemplo simbólico dessa política de ajuste fiscal acima da vida, acima da ciência e do desenvolvimento. Temos de nos contrapor a isso com vigor”, conclamou hoje (2) o físico Ildeu de Castro Moreira, presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), em live de lançamento do manifesto Em Defesa da Educação, Ciência, Tecnologia e Inovação no País.

O documento assinado por onze ex-ministros da área em governos de diferentes partidos é mais um instrumento de pressão sobre o Congresso. Está nas mãos de deputados e senadores a liberação integral dos recursos do Fundo Nacional de Desenvolvimento da Ciência e Tecnologia no orçamento deste ano. O pagamento de bolsas e recursos para testes e a produção de vacinas estão ameaçados. “O enfrentamento da pandemia nesse momento grave que vivemos depende de recursos imediatos. Contamos com a pressão da sociedade. Assinem o manifesto, pressionem os deputados e senadores e nos ajudem a vencer essa situação crítica”, pediu Moreira.

Para assinar a petição, clique aqui.

Ciência pela equidade

O presidente da SBPC destacou o atual desafio duplo, de resistir ao movimento anti-ciência em um momento que é tão importante no combate à pandemia. E ao mesmo tempo em que se deve lutar contra o negacionismo e pela liberdade. Isso inclui a perseguição às ciências humanas, que têm tido bolsas de pesquisa suspensas.

“Precisamos avançar. A comunidade científica, nas universidades e centros de pesquisa, tem de fazer isso. E como avançar e fazer uma ciência mais conectada com os grandes interesses do país?”, questionou. “É lutar de maneira mais efetiva pela redução das desigualdades e renovar nossas instituições, universidades, com menos burocracia, melhorando muito a educação básica, que é fundamental para o desenvolvimento do país. Esse aprimoramento tem de ser feito ao mesmo tempo em que exercemos resistência a esses processos de desmonte que estamos enfrentando”.

Economia sustentável

Essa luta pela redução das desigualdades e pelo crescimento de uma economia sustentável, segundo Moreira, tem de estar no cerne de um projeto de nação. “Estamos a um ano do bicentenário da Independência e é fundamental que a gente se una na construção desse projeto. E a comunidade científica e educacional tem muito a contribuir com isso.”

manifesto (leia íntegra no final da reportagem) é assinado pelos ex-ministros José GoldembergJosé Israel VargasLuiz Carlos Bresser-PereiraRonaldo SardenbergRoberto AmaralSergio Machado RezendeAloizio MercadanteMarco Antonio RauppClélio CampolinaAldo Rebelo e Celso Pansera.

Assista à live de lançamento do manifesto

 

 

Leia o manifesto na íntegra

Manifesto em Defesa da Educação, Ciência, Tecnologia e Inovação

Nós, ex-ministros de Estado, manifestamos nossa profunda preocupação diante das ameaças à Educação, à Ciência, Tecnologia e Inovação, decorrentes dos graves cortes orçamentários propostos para 2021, com descontinuidade de programas estratégicos e risco de colapso de instituições do Sistema Nacional de CT&I – retrocesso sem precedentes na história das políticas nacionais.

Enquanto países desenvolvidos reforçam suas políticas de CT&I, em face da contribuição essencial destas para retomada do crescimento sustentável e equânime, caminhamos a passos largos na direção do obscurantismo – mediante a negação da ciência, recuo na formação de recursos humanos e declínio da inovação no setor produtivo.

Com enorme empenho, nas últimas décadas, qualificamos significativo corpo de pesquisadores, que tem atuado na fronteira do conhecimento e que projetou o Brasil como 14º maior produtor de ciência mundial, posição hoje ameaçada. Nem mesmo as piores previsões poderiam projetar tal cenário.

Nações mais desenvolvidas são aquelas que têm no avanço da pesquisa e inovação as bases para construção de uma sociedade do conhecimento. A centralidade dessa agenda nos países desenvolvidos, e em alguns países em desenvolvimento, nos últimos anos, instaurou estratégias industriais e de CT&I com status de políticas de Estado de longo prazo, apoiadas em incentivos à P&D, subvenções e uso do poder de compra governamental.

A perspectiva de ascensão e ampliação da digitalização – disseminação da tecnologia 5G e da indústria 4.0 – intensificou essa agenda, como evidencia o manifesto franco-germânico por uma nova política industrial e de P&D para a Europa, do fortalecimento da indústria articulada ao Green New Deal nos EUA, das prioridades chinesas à inteligência artificial e ao avanço em semicondutores. Sem ciência não há inovação. Sem inovação não há desenvolvimento.

A impressionante resposta, rápida e efetiva, dos sistemas nacionais de pesquisa e inovação aos desafios da Pandemia causada pelo vírus SARS-CoV-2 – não apenas no desenvolvimento e produção de vacinas, mas na oferta de novas tecnologias digitais – evidenciou a relevância de fortalecer a CT&I como um dos eixos da retomada do crescimento econômico, com sustentabilidade ambiental e equidade social, no mundo e no Brasil. O momento requer visão de longo prazo e avanço urgente dos investimentos públicos e empresariais em CT&I, cujos retornos sociais e econômicos são reconhecidamente muito elevados.

Por décadas e em diferentes governos, o Brasil buscou colocar a educação e ciência em prol da soberania nacional, hoje ameaçada por uma desastrosa política. Temos presenciado ações que terão como resultado, além da séria crise social, a redução da competitividade da economia nacional, a perda de emprego e renda, como levarão a gargalos que inviabilizarão a recuperação econômica e produção de um novo ciclo de crescimento. Mesmo diante de 14 milhões de desempregados e 32 milhões de pessoas subutilizadas, assistimos ao desmonte das instituições públicas e redução da capacidade do Estado em enfrentar a crise.

Lamentavelmente, com mais de 250.000 vidas perdidas para o SARS-CoV-2, testemunhamos a displicência e insensibilidade com que o governo trata a questão. Apesar dele, presenciamos com alívio, a resposta do SUS, dos laboratórios nacionais, das empresas, e notadamente, o enorme esforço dos profissionais da saúde e da comunidade científica no compromisso incansável para com a vida, na busca de soluções para a grave crise sanitária, mas ainda há muito a ser feito e a sociedade não pode esperar.

A proposta orçamentária para 2021 revela a face do atual governo, com decréscimo dos investimentos públicos de R$ 75 bilhões em 2014 para R$ 25,1 bi (a preços de 2020). A principal perda, de 26% em relação a 2020, está no MCTI. Os recursos discricionários, onde se materializam as políticas setoriais, despencam de R$ 8,7 bilhões em 2014 para R$ 2,7 bi em 2021 (a preços de 2020). O CNPq, com recursos que diminuem a cada ano, terá apenas R$ 22 milhões para fomento à pesquisa em todo o país em 2021, além de uma redução de 10% nos programas para bolsas. A perda na Capes é drástica, os recursos orçamentários despencaram de R$ 7,7 bilhões em 2015 para R$ 2,9 bi em 2021. As universidades e institutos federais acumulam uma queda progressiva em seus recursos discricionários nos últimos anos.

A aprovação do PLP 135/2020, sancionada como Lei Complementar nº 177/2021, que poderia garantir a manutenção do SNCTI e a estabilidade da cadeia de saúde, teve seus efeitos anulados por vetos presidenciais aos seus dois principais dispositivos. Na prática, voltaria a valer o contingenciamento de 90% do FNDCT, reduzindo seus recursos de R$ 5,3 bilhões para apenas R$ 500 milhões. Somando os cortes de 2020 e 2021, são R$ 9 bilhões retirados do FNDCT. É de fundamental importância que o Congresso Nacional não aceite esses vetos.

Por isso, estamos aqui, mais uma vez, conclamando o Congresso Nacional e a sociedade brasileira para que se mobilize em defesa da Educação, da Ciência, Tecnologia e Inovação, patrimônios da Nação. É urgente vencermos o obscurantismo, através da valorização da produção de conhecimento nacional. É preciso investimento contínuo nas instituições de P&D nacionais e na formação de mão de obra qualificada em todas as regiões do país.

conhecimento científico e a educação devem ser colocados no centro das questões nacionais e revalorizados como alavancas para o crescimento econômico, reindustrialização e redução da pobreza, buscando uma economia ambientalmente sustentável e solidária.

Força à Educação, à CiênciaTecnologia e Inovação para que sigam na luta pela preservação da vida, pela garantia da soberania nacional e redução das desigualdades em nosso país!

Brasil, 2 de março de 2021.

Ex-Ministros de Estado da Ciência, Tecnologia e Inovações*

José Goldemberg
José Israel Vargas
Luiz Carlos Bresser Pereira
Ronaldo Sardenberg
Roberto Amaral
Sergio Machado Rezende
Aloizio Mercadante
Marco Antonio Raupp
Clélio Campolina
Aldo Rebelo
Celso Pansera

*Ordenado por período dos mandatos

 

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fonte: http://www.ihu.unisinos.br/607206-ciencia-tem-de-combater-o-terraplanismo-economico-diz-presidente-da-sbpc